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Da vida estudantil à presidência da República: Sarney fala sobre sua trajetória

Sarney remonta capítulos importantes da história contemporânea brasileira e aborda temas relevantes para o momento atual do país em entrevista

Concedida há dez anos, a entrevista de José Sarney ao jornalista Evandro de Oliveira Bastos, autor do livro Sarney: O Outro Lado da História, continua atual. Ao recordar os principais pontos de sua trajetória política, Sarney remonta capítulos importantes da história contemporânea brasileira ao mesmo tempo em que aborda temas relevantes para o momento presente do País. “O Brasil fez muito por mim, o povo brasileiro fez muito por mim. E eu só tenho que procurar fazer o máximo que eu puder”, diz.

Com detalhes, Sarney esclarece episódios importantes das últimas décadas da vida política brasileira. O político e escritor também fala sobre o regime militar, seu mandato como presidente da República, a redemocratização, ideologias e partidos políticos, sistema eleitoral, desenvolvimento econômico e até sobre a fé. “Como eu disse, sou um homem de fé. Até hoje ando com uma medalhinha da irmã Dulce no bolso.” O jornalista Oliveira Bastos era amigo pessoal de Sarney. A entrevista foi concedida em janeiro de 2001.

Veja a íntegra da entrevista abaixo

Oliveira Bastos – O senhor poderia contar a sua trajetória política? Como o senhor entra na política brasileira?

Sarney – Em uma noite de cantoria do Nordeste, quando eu era candidato a deputado — e, àquela época, era normal que, quando se estabelecia uma cantoria, cada um se apresentasse, dissesse seu nome, a que veio etc. —, tive que dizer o seguinte: que “José Sarney era o meu nome, com ele eu fui batizado, na matriz do meu São Bento, onde também fui crismado”, e que “José Adriano era o padrinho, que abaixo de Deus era louvado”. Que “fui estudante e coroinha, brasileiro e advogado, já trabalhei na polícia e eu também sou deputado”. E aí repetia uma coisa que era para causar efeito na cantoria. Rui Barbosa dizia que a Bahia era fonte de todas as suas inspirações. No meu caso, o Maranhão não é somente a fonte de todas as minhas inspirações, mas a grande motivação da minha vida. É minha terra, minha paixão, é amor demais, é saudade que não passa nunca, e eu posso dizer que a minha pátria começa no Maranhão. Lá começou minha carreira política, e eu tive que abrir o meu próprio caminho. Acho que cada pessoa nasce com algumas qualidades inatas.

Talvez eu tenha nascido com vocação para a liderança. E o que é a liderança? É a capacidade que se tem de harmonizar vontades no sentido de um objetivo comum. E eu, desde menino, sempre procurei fazê-lo, desde o tempo dos grêmios escolares, mesmo na escola primária, depois já no Liceu Maranhense, onde fui presidente do grupo, do centro liceísta, e editei o jornal Folha do Estudante. Depois fui presidente da Federação Maranhense de Estudantes, delegado na UNE, e na faculdade também fui presidente de diretório.

Os caminhos da luta estudantil me levaram à política. Mas, sem dúvida alguma, tive um instrumento grande que me beneficiou para que eu pudesse entrar na política: em 1947, eu tinha 17 anos, abriram um concurso para repórter nos Diários Associados do Maranhão. Ganhei esse concurso. Fui contratado para ser repórter do Imparcial. Comecei no setor policial, passei dois anos cobrindo polícia e fiz carreira dentro dele. O jornal foi uma tribuna para que pudesse exercer as idéias políticas que achava que nós devíamos ter no Maranhão.

Naquele tempo o Maranhão era um Estado profundamente atrasado, talvez a gente vivesse ainda os tempos da República Velha, com todos os seus métodos. Praticamente não tínhamos eleição, mas uma simulação de eleição, a “bico-de-pena”. E nos reunimos em um grupo para resistir a tudo isso. Era uma coisa meio quixotesca, porque éramos um grupo de intelectuais, até da chamada “geração de poetas”. E, dentro dos jornais, começamos a resistência ao Vitorino Freire, que era então o senador que, muito amigo do general Dutra, tinha um domínio muito grande no Maranhão. E fui logo seduzido pela campanha do brigadeiro Eduardo Gomes, porque em torno dele se reuniam os intelectuais. Como sempre tive uma vocação intelectual — era um dos poetas da província —, entrei para a juventude brigadeirista da UDN. Em 1945, com 15 anos, fiz a campanha do brigadeiro Eduardo Gomes, por meio da qual liguei-me a um maranhense importantíssimo dentro da UDN, o Odilo Costa Filho, que era secretário do Virgílio Melo Franco. Foi um certo elo, porque, entre a política estadual e a política nacional, ele nos dava apoio para cobrir a nossa ação estadual.
Quando chegamos na eleição de 54, fui candidato a deputado federal; não fui eleito, e devo dizer que fiquei como suplente. Depois morreu Olimar Campos, fui convocado, e em 1955 chegava à Câmara dos deputados federais. E lá, para mim, era um mundo que se abria, que de certo modo me levou à política nacional.

Mas devo repetir que a minha pátria começa no Maranhão. A visão que sempre tive de política foi sempre a de que nenhum político pode ser bom político se não tiver raízes dentro do seu Estado; aquela história que o Herbert Read dizia: quanto mais regional, mais universal. No setor federal, liguei-me à UDN e, em 58, eu era suplente, e fui eleito realmente deputado, o mais votado. Tive um apoio muito grande da imprensa no Rio de Janeiro, na minha participação dentro da Câmara dos Deputados. Na reunião que nós tivemos para escolher a liderança, com Afonso Arinos, que então era o líder, Carlos Lacerda, Prado Kelly, Otávio Mangabeira e João Agripino, todos da UDN, o Afonso Arinos disse que tínhamos que escolher também um jovem, não só os velhos, para liderar a UDN, e me escolheu como vice-
líder. Fui vice-líder aos 28 anos, com Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Prado Kelly — eles eram os líderes, e era o tempo da famosa “banda de música”. Evidentemente, eles tocavam violino, violoncelo, e eu tocava reco-reco. Na realidade, foi assim que cheguei à política nacional, ligado à UDN.

Bastos – O senhor falou que no começo da sua vida política a campanha era feita a “bico-de-pena”, quer dizer, só eram eleitos aqueles que os donos do poder queriam. O senhor poderia contar alguns casos que o senhor chegou a presenciar no Maranhão?

Sarney – As eleições no Maranhão, naquela época, talvez fossem as últimas eleições da República Velha. Quer dizer, havia o sistema do coronelismo do interior. A política era governada por apenas duas pontas, que eram a polícia e o coletor, o cobrador de imposto, que era a fórmula do século XIX. E tínhamos uma visão de intelectuais, de que devíamos romper com aquilo tudo, não só sob o aspecto político, mas vinculávamos o atraso econômico do Maranhão ao atraso político, o subdesenvolvimento político gerando o subdesenvolvimento econômico.

Formulamos, pela primeira vez dentro do Estado, uma idéia do planejamento econômico. Essas idéias surgiram e o destino me entregou a liderança dessa geração, dentro do Maranhão. Eu posso contar que depois que fizemos o saneamento eleitoral, foi colocada no muro do cemitério uma frase, às vésperas da eleição, que dizia tudo: “Agradecemos este ano não termos que votar nas eleições”, porque o tribunal tinha proibido os eleitores fantasmas. Quer dizer, os mortos votavam, as eleições eram todas feitas a “bico-de-pena”: não havia eleição. Vinha um mapa assinado, com quem tinha sido eleito. A oposição não tinha nenhuma condição de eleger ninguém, elegia um ou dois deputados pela capital, no resto do Estado todo era um domínio completo que se estendia não somente na área política, mas na área econômica e em todos os setores da vida. Ninguém poderia sobreviver se não estivesse vinculado a esse sistema oligárquico. Fui, pelo destino, o representante dessa geração que realmente iniciou essa mudança no Maranhão, que foi a mudança que se observou em 1965.

Quando se fala na geração dos poetas, eram Ferreira Gullar, que hoje é um grande nome nacional, o Bandeira Tribuzzi (o Brasil ainda vai descobrir o extraordinário poeta que ele é, um dos maiores da língua portuguesa), Lago Burnet, Carlos Madeira, Domingos Vieira Filho, uma geração que posso dizer que é brilhante. Talvez eu fosse o de menor qualidade dentre todos eles. Mas éramos todos jovens, idealistas, e posso até dizer de esquerda. Quer dizer, nossas idéias eram, sem dúvida alguma, de esquerda. Porque eu tinha sempre a visão de que o comunismo era uma idéia generosa. O Manifesto comunista exprime isto: uma idéia de salvação da humanidade, uma esperança e tudo o que ele representava. Depois da Segunda Guerra, evidentemente isso incendiou os corações, e julgávamos que o mundo seria outro, que iam desaparecer as guerras, que, com a derrota do nazismo, nós iríamos então reconstruir um mundo no qual se trabalharia socialmente. Dentro desse trabalho social, evidentemente, as idéias de esquerda eram predominantes.

Naturalmente, aí vai uma pergunta: mas por que você não aderiu à esquerda? Em relação a mim, acontece um fato que é muito pessoal. Como sou de uma família muito religiosa e sempre fui muito religioso, sempre fui um homem de muita, muita fé, católico praticante, até hoje sou, o que me separou do comunismo foi realmente a religião. Eu não aceitava jamais uma ideologia ateísta. Mas quanto às idéias sociais que dominavam o meu tempo, achava que todas elas eram muito válidas. E participava muito, já no Rio de Janeiro, com a esquerda democrática, que todos nós fomos; isso vai se refletir na minha carreira política pela tendência social que sempre tive.

Quando, dentro da própria UDN, se cambava para processos que eram até acusados de golpistas, e ficava numa torre de marfim, naquele momento então chefiei a ala da “bossa nova”, que era o combate ao Juscelino, sim, mas com justiça social. Isso foi escrito por mim, em um manifesto que foi feito pela “bossa nova”, isto é, pela primeira vez àquele tempo. Porque muitas vezes a gente pensa que naquela época do Juscelino as coisas se desenvolviam todas muito bem, que era um mundo de
desenvolvimento, mas não era não. O tempo que se vê não é uma projeção.

O que se combatia naquele tempo era que justamente o Juscelino tinha uma visão absolutamente desenvolvimentista, só pensava na parte econômica, na parte do desenvolvimento, e havia um certo abandono da área social. Daí foi que nasceu, dentro da UDN, um movimento nosso contra a liderança estabelecida no partido. Era justamente para dizer que nós não éramos contra o desenvolvimento do Juscelino, éramos a favor dele, achávamos que o país não era só combate à corrupção, como queria a UDN. Combater a corrupção, sim, desenvolver, sim, mas com justiça social. Porque o povo sempre deve ser o destinatário da nossa ação política.

O povo não foi feito para os políticos, os políticos é que foram feitos para o
povo.

Bastos – O Nordeste sempre foi um território à parte na política brasileira. O senhor acredita que os elementos básicos da velha política nordestina, como o coronelismo e as oligarquias, apenas mudaram de roupa?

Sarney – Não. Acho que tudo isso, quando se fala, está muito associado à pobreza. O Nordeste é uma região extremamente pobre, quer dizer, extremamente desassistida; ele ficou até hoje marginalizado do progresso do Brasil. E hoje o Nordeste participa do desenvolvimento nacional como fornecedor de mão-de-obra barata para as indústrias que se estabeleceram no Centro-Sul. Ele sempre foi um grande exportador, e o saldo de exportação que criou ao longo desse tempo reverteu em favor do desenvolvimento nacional. Mas acho que há muito exagero quando se fala
isso. O coronelismo, o clientelismo, tudo isso é muito associado, até mesmo porque os recursos que circularam no Nordeste são muito menores do que os grandes recursos que circularam no Sul do país, em projetos de muito maior magnitude do que aqueles que foram para lá. Mas como ele é pequeno, é como um laboratório. A gente vê as coisas com maior visibilidade, porque você vê em microscópio, você não vê naquela dimensão que a gente vê no nível nacional. Não quero dizer que no Nordeste não tenha havido esse sistema; ele era comum em todo Brasil. Era o clientelismo, o coronelismo, que vieram a desaparecer do Nordeste muito depois.

Desapareceram primeiro no Sul, justamente porque a pobreza permaneceu muito mais tempo no Nordeste e ele era isolado, não havia integração nem meios de comunicação. Devemos a Celso Furtado, quando ele concebe a SUDENE, o fato de o Nordeste se tornar uma região integrada. Ele tinha que criar suas próprias forças internas de desenvolvimento, porque estava isolado do Brasil. Não havia meios de
comunicação. Eu também fui dessa geração que propugnou uma nova mentalidade para o Nordeste. Estava junto desse grupo, embora da UDN, que apoiava o Celso Furtado. Fui um daqueles que denunciaram, em 1959, por meio da Operação Nordeste, que não podíamos ter só a visão das secas.

No Saara não chove e não tem problema nenhum, porque lá não tem gente. A seca é um problema sociológico, não é só um problema climático. Essa era a nossa visão. O Celso Furtado, a partir daí, com o nosso apoio, de todo um grupo de deputados (e nós éramos contrários, eu, Edilson Távora, Seixas Dória), pôde ter essa nova visão de planejamento do Nordeste. Éramos uma geração que tinha sido inovadora no Maranhão, e que eu, como deputado federal, propugnava que fosse também inovadora no que diz respeito ao Nordeste brasileiro.

Bastos – O aspecto ideológico dos anos 50 era balizado pela Guerra Fria. Quem representava a nossa esquerda, se o PCB foi banido em 47 e o PSB era insignificante?

Sarney – Se examinarmos a esquerda brasileira, veremos que ela tem uma separação muito nítida. Nós temos a esquerda ideológica, idealista, dos intelectuais, e tínhamos a esquerda pragmática, do socialismo de Estado, partidária. Se formos buscar as raízes dessa esquerda ideológica, vamos achá-las na Revolução de 30: ela nasce justamente com os tenentes. Os tenentes eram socialistas. Muitas vezes começamos a esquecer isso. Juarez Távora e Siqueira Campos eram socialistas. E o Prestes também, com aqueles tenentes todos. A separação primeira que vai existir no Brasil é justamente essa. Quando os tenentes se separam, os da esquerda idealista se vinculam justamente à linha da Revolução de 30, e o Prestes adere ao socialismo de Estado. Ocorre que Getúlio Vargas pega essa esquerda intelectualizada, do Manifesto dos tenentes, e faz a chamada política social, toma essa bandeira deles. O Prestes, então, se separa confrontando o socialismo de Estado com esse socialismo ideológico.

Quando esse socialismo ideológico vem, Getúlio procura aliar-se com o que restava das velhas estruturas, e ao mesmo tempo ele concede aos tenentes aquilo que eles pensavam sobre o que devia ser uma sociedade brasileira modernizada, não somente contra os baixos costumes políticos, eleições fraudadas, falta do voto feminino, abuso de todos os poderes econômicos, do voto deturpado, mas eles queriam também outra coisa. Nós não devemos esquecer, por exemplo, que no Manifesto dos tenentes a primeira coisa que eles pediram foi a criação do Ministério do Trabalho, e foi a primeira coisa que Getúlio fez para poder ter o apoio militar.

De certo modo, a Revolução de 30 começa a se frustrar porque Getúlio adere ao populismo. Ele começa a desenvolver uma política sindical clientelista, ele começa esse tipo de política ministerialista, e isso abafou as forças sociais no Brasil, de tal modo que elas só vão ressurgir quando se funda o PT. Restaura-se o sindicalismo autêntico, verdadeiro, fora do oficialismo só muito depois. Porque o Getúlio tinha criado, a partir desse momento, esse tipo de socialismo que abafou as forças sociais.

Por uma contradição da história — talvez isso tenha uma certa visão udenista, a meu ver —, o período Vargas significa exatamente o período do atraso das forças sociais brasileiras. Porque ele calcou-se na Carta del lavoro, essa visão de proteção contra todo movimento que podia eclodir, que nos outros países eclodiram e os transformaram em sociedades democráticas. O Brasil ficou como ficou até o fim do século, como uma sociedade profundamente elitista, o povo sem participar exatamente das decisões nacionais. Repetia-se aquilo que se repetiu na República: fundou-se uma República sem povo. O povo não existia durante a República que foi feita, continuou não existindo, as forças sociais não se manifestaram e só vieram a eclodir como forças de um socialismo democrático a partir justamente do fim do século.

Essa é a minha visão. Enquanto isso, paralelamente, tínhamos a parte que era o socialismo de Estado, do Partido Comunista, daquelas estruturas que tinham como base a União Soviética, o modelo stalinista que veio a fracassar por suas contradições. E isso de certo modo confrontava, e era essa a esquerda que queria aparecer. Foi uma luta heróica, sem dúvida, até brutal, o que aconteceu com todos aqueles grandes idealistas, mas é assim que eu vejo o movimento de esquerda no Brasil. Hoje, quando isso tudo acabou, a Guerra Fria desapareceu, acho que o mundo marcha para um modelo no qual esse capitalismo que atualmente estamos vivendo, a meu ver, vai também morrer, como morreu o comunismo, por suas próprias contradições.

Porque, realmente, tudo que é injusto não permanece. Depois desse movimento de globalização que assistimos atualmente, em que o mundo tenta ser um mundo só, em que se procura acabar com as identidades nacionais, nós teremos que ter uma sociedade muito mais justa. E os países subdesenvolvidos, os países que ficam aqui na nossa área, eles não podem descuidar de nenhuma maneira da área social. Porque esse sistema é um sistema que é a Lei de Darwin aplicada à economia: aqueles que forem mais fortes sobrevivem. Esse é o sistema que se criou, e se nós não defendermos os mais fracos, se nós não tivermos uma visão social, evidentemente que isto será um novo holocausto que a humanidade vai pregar, a morte dos mais fracos e a sobrevivência dos mais fortes.

Bastos – O senhor disse que os políticos foram feitos para o povo. O que aconteceu com os políticos brasileiros, já que o país continua com problemas sociais tão graves?

Sarney – Acho que esse é um modelo comum a toda a América Latina. É um modelo no qual há uma grande concentração de renda e baixos indicadores sociais. Esse foi um modelo que foi adotado no continente inteiro, um continente que foi muito marginalizado em relação ao progresso do resto do mundo. E aí nós vamos buscar raízes geopolíticas, porque na realidade tudo se pode mudar no mundo, só uma coisa não se pode mudar: a geografia. E a América do Sul está em um fundo de saco, é isolada, por aqui não passa nenhum fluxo econômico, comercial, cultural. O Hemisfério Norte engloba quase tudo isso. A América Latina vive esse drama, que é
muito peculiar, e que a sua literatura, com sua poderosa força, tem retratado tão bem.

Bastos – E os políticos não podem fazer nada?

Sarney – A idéia de que os políticos podem fazer é muito romântica, do século passado, quando se podia, por meio do discurso, mudar as coisas. Hoje sabemos que há uma realidade social que são as circunstâncias em que os políticos podem agir. O líder pode agir, pode harmonizar vontades. Quando ele quer impor a vontade, fracassa, não é um líder. A função dele é justamente a de coordenar vontades, e coordená-las com um só objetivo. Eles podem fazer e devem fazer, mas estão muito limitados a essa situação que é comum ao continente. A gente, com o tempo, vai vendo que a política do século XIX, do discurso, simplesmente é incapaz de transformar o mundo. A grande decepção que temos com os políticos neste século é que nós vamos verificar que o século nasceu com as idéias todas que vêm da Revolução Comunista, do seu princípio, das idéias positivistas de mudar, e todos achávamos que nós, políticos, e que a política iam mudar o mundo.

Chegamos ao fim do século sabendo que não fomos nós políticos que mudamos o mundo, nós não melhoramos a qualidade de vida das pessoas. Por exemplo, quem descobriu a penicilina, o Fleming, melhorou muito mais a qualidade de vida das pessoas do que todos os discursos políticos e ideológicos que foram feitos. A ciência e a técnica foram capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Nós, hoje, já temos a visão de que realmente o discurso político é limitado por muitas circunstâncias.

Não é por outra coisa que aqui, na América Latina, ninguém vê os grandes estadistas, porque eles são trucidados pelo ambiente em que vivem. Na realidade, esses homens são prisioneiros. Muitas vezes eles são obrigados a ir ao sacrifício por causa da situação que encontraram. E devo citar que isso não ocorre só na América Latina. Estava conversando outro dia com o Helmut Schmidt, que foi primeiro-ministro da Alemanha. Ele não é um homem muito modesto, a gente pode até dizer que é muito vaidoso. E ele então me contou a seguinte história: “Eu me preparei para ser chanceler da Alemanha, me considerava o homem mais preparado da Alemanha para dirigi-la; fiz uma carreira política brilhante, sou um intelectual que conheço todos os problemas do país, me preparei para governá-la e fui chanceler”.

“Simplesmente”, ele me disse, “quando o fui, a minha função foi combater as Brigadas Vermelhas, a Baader-Meinhoff, que teve durante aquele tempo”. Ele vivia lá batendo à máquina, ninguém dava valor para ele. E concluía dizendo assim: “Ninguém comanda durante o tempo que governa”.

Bastos – Mas a administração pública não deveria ser responsável pela melhoria de vida das pessoas?

Sarney – A administração é responsável pela melhoria de vida das pessoas, sem dúvida alguma. Eu não quero com isso eximir os homens públicos brasileiros. Quero é dizer que eles são frutos da sociedade brasileira, não são pessoas estranhas que são eleitas. Eles fazem parte da sociedade brasileira e também fazem parte das estruturas econômicas que suportam essa sociedade. Esse é o problema. Já estou falando um pouco mais como analista do que como político; realmente, talvez isso não seja uma linguagem de político, mas de uma pessoa que já vai vivendo. Eu fui talvez um grande orador de comício do Maranhão, tinha todas essas idéias. E, de um certo modo, a minha geração fica frustrada quando vê morrer todos aqueles ideais pelos quais lutamos, vê uma sociedade que foi construída no fim do século chegar ao princípio do novo século injusta, a colocar todos esses valores que foram construídos, tudo de que o homem foi capaz, a riqueza que foi construída, não a serviço de uma distribuição de renda, de uma sociedade justa, mas apenas, e cada vez mais, de um individualismo que torna o mundo mais injusto sob o nosso ponto de vista.

Bastos – O que o senhor faria diferente se tivesse a oportunidade de administrar de novo o país?

Sarney – Confesso que se eu tivesse que administrar de novo o país, o que é uma hipótese absolutamente impossível, até mesmo porque não desejo, acho que teria uma experiência bem maior do que a de quando fui ao governo. Até porque eu governei com as minhas circunstâncias. Quer dizer, algumas vezes fui o melhor presidente do Brasil e outras vezes fui o pior presidente que o Brasil já teve.

Bastos – Na República Velha, os partidos eram basicamente regionais. Depois é que se tornaram nacionais. O PSD de Minas, a UDN carioca e o PSP paulista poderiam ser vistos como partidos regionais?

Sarney – Esse é o grande problema dos partidos no Brasil, e é um dos males políticos do país. O Brasil não tem partido. Se nós tivéssemos partidos formados e organizados ao longo do tempo, teríamos outra classe política, outra direção política, sabendo os rumos que devíamos tomar. Porque se nós vamos olhar para a Argentina, aqui do lado, ela tem partidos com mais de cem anos. Mas o Brasil nunca teve tradição de partido nacional. Porque o território é muito grande, talvez isso justifique, sempre teve a tradição de partidos locais, estaduais. Esses partidos fazem com que a vida política desapareça no Brasil. Chegou a revolução de 64 e quis acabar com isso, trinta e tantos partidos. Fez, por decreto, dois partidos: Arena e MDB. Pois bem. A força do partido estadual era tão grande que eles não tiveram condições de fazer, eles tiveram que criar a sublegenda, que naturalmente era um partido dentro de cada partido. Então, os dois partidos, em cada Estado, tinham seis partidos, que eram três sublegendas. Multiplicaram pelo número de Estados e, em vez de vinte e poucos partidos, passamos a ter sessenta e poucos, porque a lei autorizando o partido nacional data de 1947 no Brasil. Esses partidos regionais entram naquelas facções, naquela luta local, mesquinha, de pessoas, e no nível nacional se unem em torno de governo e oposição. E como não há um ideal que possa uni-los, não tem programa, não tem nada. Fica então o Congresso a agir por meio de barganhas, trocas, votar matérias por matérias, sem uma unidade, sem programa de governo, de nenhuma maneira. Acho que se hoje tivesse a oportunidade de governar o Brasil, a primeira coisa que faria seria ordenar o sistema político brasileiro, fazer essa coisa heróica, que é difícil, tem que ter coragem, tem que enfrentar. E eu enfrentaria para que nós pudéssemos organizar esse sistema político brasileiro.

Bastos – Como se dá esse tipo de barganha de que o senhor falou? O senhor tem algum caso para contar?

Sarney – O que estou dizendo que é barganha é o que estabelece o sistema político de compor maiorias eventuais, e não assegura governabilidade. Elas são feitas, então, em troca de composição de partidos com partidos, ministérios e tal… Se fosse no nível de um programa de governo, é o que na democracia se faz no mundo inteiro. Mas aqui no Brasil se faz no picadinho, dia-a-dia, matéria por matéria, o que destrói o deputado e o governo.

Bastos – Os partidos hoje têm uma ideologia?

Sarney – Os partidos não têm ideologia nenhuma. Nunca tiveram, porque não têm programa. No Brasil não existe partido político. E tem mais uma coisa destruidora: o voto proporcional uninominal — isso só existe no Brasil. Não existe em lugar nenhum do mundo! O voto proporcional foi feito no fim do século passado, era uma idéia positivista para que as ideologias pudessem ter as suas representações. Como desapareceu a ideologia, ficou o voto proporcional no Brasil até hoje. E ele é fracionador de partido. As pessoas não brigam com outro partido, elas brigam dentro do seu próprio.

Às vezes, termina a eleição, o candidato do mesmo partido não pode sentar em uma mesa porque estão todos mais brigados entre si do que com os outros partidos. Então, isso é uma coisa destruidora. Não se formam maiorias consistentes. E hoje o mundo não precisa mais dessa representação proporcional para que possa representar correntes ideológicas, porque a sociedade democrática se organizou, como no Brasil, em um sistema de capilaridade entre todos os seus setores, de maneira que ela tem representatividade. Vamos dar um exemplo de hoje: o Vicentinho tem mais representatividade do que qualquer grupo de deputados quando
fala, então não precisa ser deputado para falar. O membro da associação de professores, o Stédile, o Rainha, isso é uma representatividade que a sociedade dá e na qual ela se criou. Não existe necessidade disso, isso passa a ser uma coisa, de certo modo, anacrônica, destruidora do processo político brasileiro, e tem que ser removida — é um defunto que está no meio da casa, o voto proporcional. Ele é o responsável, basicamente, pela destruição dos partidos, que não existem, e pela sua não-formação. Ele desorganiza os governos, não faz maiorias absolutas, não existem
programas — esse é o caos político nacional. Essa seria a primeira coisa a enfrentar, em um programa sério dentro do Brasil. Você diz assim: “Por que o senhor não enfrentou, se foi presidente?”. Não enfrentei porque não tinha condições políticas de enfrentar. O meu problema era muito mais sério, era o de sustentar o poder, que o Brasil tivesse uma transição democrática, que naquele momento não falhássemos.

Porque há uma coisa que ronda a Presidência da República. Quem está fora pensa que ser presidente da República é uma coisa fácil. É um cargo muito complexo. O presidente corre mais riscos do que todo mundo. Vamos ver o exemplo da história do Brasil: suicídio, deposição, assassinato, fracasso completo e impeachment. Isso tem acontecido. E por que acontece e não aconteceu comigo? Tudo levava a que acontecesse uma dessas coisas durante o meu governo, porque eu tinha o dever com a morte do Tancredo Neves. Às 2 horas da manhã, alguém diz: “Você vai assumir a Presidência da República”. Você não sabe quais eram os programas, os compromissos do Tancredo, nada disso, e você tem então que pegar aquelas forças heterogêneas, organizá-las para que elas não extravasassem e para que pudessem levar o país à transição democrática. E isso ocorreu. Ocorreu com muito sacrifício.

Quem pagou o maior sacrifício fui eu, porque no tempo em que estive na Presidência, houve justamente 12 mil greves. Tira-se a tampa da panela, e todo mundo querendo que do dia para noite tudo fosse feito… as pressões eram muito maiores do que aquilo que se podia fazer. E, entretanto, Deus me ajudou com o meu temperamento de prudência, com o meu temperamento de saber, e a minha experiência valeu muito; nós pudemos fazer uma transição democrática. E essa transição se deu sem regressão, porque se o presidente Sarney tivesse fracassado nos seis primeiros meses, nós teríamos um retrocesso político no Brasil gravíssimo,
ou mesmo um desastre total.

Bastos – O senhor corria o risco de não assumir a Presidência da República? Havia forças militares querendo que o senhor não assumisse?

Sarney – Para isso não teve nem tempo. Às 2 horas da manhã, o senador Frageli me ligou, em seguida o general Leônidas Pires Gonçalves, e eu disse a eles: “Eu não desejo assumir a Presidência”. Até porque eu estava pensando que o Tancredo dentro de uma semana estaria restabelecido. Eu acho que foi uma decepção para o povo brasileiro, que esperou este dia, que aparecesse eu recebendo o governo no lugar do Tancredo. “Eu quero receber junto com o Tancredo, sou o vice-presidente e quero receber…” E aí eu ouvi do outro lado da linha o Leônidas: “Olha, Sarney, não vamos
criar mais caso; nós estamos em um momento muito difícil, o problema é institucional, não é pessoal. Nós temos que transpor isso, quer dizer, estamos encerrando um ciclo da história. Não vamos discutir mais nada.

Boa noite, presidente”. E bateu o telefone. Então, o que ocorre? Às 10 horas da manhã, entrei naquele Congresso como se eu estivesse levitando, era uma levitação. Porque eu não sabia o que estava realmente acontecendo. De repente, o destino me pegou, me trouxe de Pinheiro, me jogou e disse: “Olha aqui, você é presidente da República”. E agora? Como vice-presidente, a minha posição tinha sido de absoluta discrição. Inclusive falei com Tancredo: “Eu não quero de nenhuma maneira interferir em nada. O meu exemplo vai ser o do Mondale”. Eu sempre gostei de ser intelectual, tinha estudado tudo sobre a Vice-Presidência nos Estados Unidos: como era a instituição da Vice-Presidência, como ela foi instituída. Preparei até um estudo grande e entreguei ao Tancredo. Estava resumido naqueles dados que o Mondale tinha dado ao Carter dizendo: “Eu quero ser um vice-presidente discreto, não quero interferir em nada; quando você achar conveniente, me informe das coisas etc.”. Esta tinha sido a minha posição.

E, de repente, sou chamado a assumir. O que aconteceria nesse futuro? O que esses anos e dias estão me guardando? Era um peso extraordinário. Mas de repente eu tinha a obrigação como homem público; era uma maneira de prestar um serviço ao meu país. Se o destino me entregou esse direito de prestar esse serviço, vou prestá-lo. E, realmente, procurei fazê-lo da melhor maneira possível. Podem ter passado pela Presidência da República homens mais cultos do que eu, podem ter passado melhores presidentes, mas eu acho que com mais intenção, mais vontade de acertar, não. Bom, cada um deve pensar da mesma maneira. Mas eu pensava desse jeito. Eu tinha noção do que estava acontecendo. Nós podíamos ter um retrocesso. Imagine se dentro daqueles seis meses o Sarney começasse a fazer bobagem, demitir ministro, substituir ministro, querendo acabar com greve, o que ia acontecer? O país se tumultuava. E aí o que podia haver? Duas coisas. Ou ele entrava em uma desagregação coletiva, em uma bagunça geral, com a guerra civil, ou ele voltava para os militares. Não tinha outra solução. E eu tinha isso muito presente na minha cabeça. Então, procurei abrir os espaços para que essas forças flutuassem e tivessem espaço para agir.

Eu criei o Ministério da Reforma Agrária. Reforma agrária era uma palavra maldita, ninguém falava. O Tancredo tinha criado o Ministério de Assuntos Fundiários; quando eu fui fazer o Ministério, disse: “Vamos botar reforma agrária”. Porque o meu estilo, que foi muito bem pensado por mim, não era uma coisa feita ao sabor do que ocorria: eu tinha que enfrentar o problema de uma vez. O Tancredo podia dizer “reforma fundiária”, podia negociar com tudo isso, mas eu não podia. Colocado em xeque por todo mundo, inclusive pelas forças que apoiavam Tancredo, se eu dissesse isso ia dar coisa: “Não, é reforma fundiária”. Eu botei: reforma agrária. Então, matei a questão de uma vez por todas. Nós vamos fazer a reforma agrária. Coloquei no Ministério da Reforma Agrária pessoas que eram insuspeitas nisso.

Legalização do Partido Comunista. O Tancredo tinha dito: “Isso é um problema da Justiça”. O Tancredo podia dizer isso. Eu não podia dizer isso porque eu não tinha a força política que tinha o Tancredo para segurar a necessidade de legalizar aquilo. O que que eu fiz? Eu chamei o Giocondo Dias ao palácio e o levei para jantar. Bati uma fotografia com ele no Palácio do Planalto. No outro dia a fotografia estava em todos os jornais.

Quem mais podia falar em legalização do Partido Comunista, se o presidente recebia o Giocondo Dias, presidente do PC? A mesma coisa eu fiz com o João Amazonas, com a UNE, com as centrais sindicais, que existiam e não existiam, eram tidas e não tidas. Abri a sociedade para que ela pudesse flutuar. Isso foi feito com muita consciência. Não foi feito por acordos de ninguém, nem pensado. Isto foi uma estratégia que eu segui no governo. Em seguida convoquei a Constituinte. Muitos me disseram: “O Tancredo não convocaria a Constituinte agora, ele deixaria para depois”. Mas ele podia fazer isso, porque ele tinha força. Eu não tenho, tenho que cumprir os compromissos imediatamente. Abro um leque para que essas forças tenham condições de espaço, pois estavam contidas. Nós tínhamos também os grupos paramilitares, que estavam na clandestinidade, que de repente estavam vindo para a luz do dia. E esses grupos precisavam de espaços. E eu abri esses espaços para que eles pudessem funcionar. Eu não fui para reprimi-los em nenhuma medida.

Se o Sarney fosse outro, tivesse outra intenção, se não tivesse essa visão, nós talvez tivéssemos tido outro problema. Vamos encerrar essa história. É muito ruim falar da gente mesmo e do governo. Eu sempre gosto de dizer uma frase do Miguel Torga, no poema sobre o Afonso de Albuquerque, que foi vice-rei das Índias: “Do que eu fiz e do que eu não fiz, eu não cuido agora. As Índias todas falarão por mim”. Eu acho que é isso. Então, o saldo que tivemos foi que o Brasil não somente teve de volta instituições democráticas. Acho que os historiadores, no futuro, os sociólogos irão examinar isso. Nós não tivemos só a restauração de instituições democráticas. O Brasil, até 1985, era um país extremamente elitista, o povo não participava, era uma massa simples de manobra. A partir de 1985 — não estou dizendo que fui eu que fiz, foi a sociedade que se movimentou, mas tive o grande destino de presidir aquele tempo —, nós criamos uma sociedade democrática. Quer dizer, a sociedade se organizou em centenas de milhares de associações. Associações que se organizaram dentro da sociedade, não foram reprimidas. O programa do leite teve uma força de unir a sociedade brasileira! Oito milhões diários de litros de leite eram distribuídos.

Enfim, a sociedade brasileira se organizou de uma maneira extraordinária.

E o Plano Cruzado? Quando dizem que o Plano Cruzado fracassou, digo: foi a maior coisa que já se fez, sob o aspecto econômico e sob o aspecto político. Naquele dia em que eu disse: “Você é o fiscal do Sarney”, naquele dia o cidadão brasileiro disse: “Eu passo a valer alguma coisa”. E a verdade é que, no dia seguinte, eles iam para o supermercado dizendo:

“Estou falando aqui em nome do presidente da República, eu sou fiscal do presidente da República”. E a sociedade brasileira mudou. Outro dia vi uma entrevista e fiquei muito feliz, de umas senhoras das quais não me lembro o nome. Elas eram de uma associação de consumidores. Disseram que durante trinta anos elas lutaram pelos direitos do consumidor e ninguém respeitava, ninguém falava que era consumidor nem nada. Mas, no dia em que houve aquele negócio do Plano Cruzado, recrudesceu a consciência do consumidor no Brasil, e a sociedade se organizou. Então, essa sociedade poderosa, democrática que nós temos hoje, do povo na rua, protestando, exigindo, sem medo de nada, isso foi criado graças àquilo que nós pudemos realizar na transição democrática.

Bastos – O Plano Cruzado serviu também para eleger uma bancada imensa do PMDB, dando maioria ao governo e um controle maior da administração pública. O senhor em algum momento teve a idéia de dar uma sobrevida ao Plano Cruzado para poder eleger sua base de sustentação?

Sarney – Acho que isso é uma análise que, de certo modo, até julga a gente um pouco mal. Pensar que nós fôssemos tão bobos, tão ignorantes, achando que um plano no mês de fevereiro pudesse influenciar uma eleição em novembro, quando nós não sabíamos nem o que ia acontecer em novembro… Mas uma coisa é verdade: o Plano Cruzado foi feito para legitimar o governo. Sarney precisava ser legitimado no governo, senão ele não atravessaria o período presidencial. Ele foi feito não para ganhar a eleição, mas para legitimar o presidente, e porque eu também estava atrás
de uma solução para a inflação.

Uni os melhores cérebros. “O que vamos fazer com a inflação?” Aí só tinha uma solução: “Faça a recessão”. E eu não fazia recessão de jeito nenhum, porque sei que nela quem paga é o povo; dá no desemprego, dá na sociedade murchar, o desenvolvimento vai para trás. E era essa a fórmula do FMI daquele tempo. Era recessão imediatamente e controle das finanças públicas de uma maneira rígida. Fui atrás de um plano. Recebi a notícia vaga de que em Israel eles estavam tentando um acordo entre as forças capazes de fazer um plano econômico. Mandei o Pérsio Arida — ninguém soube disso — a Israel, ver o que estava havendo lá. Ele voltou e, com o
João Sayad, que eu considero o melhor economista brasileiro, passou a armar o Plano Cruzado, em segredo. Marchamos para fazer o Plano Cruzado.

No momento em que nós enfrentássemos o problema da inflação, o país começaria a me respeitar, porque começaria a mostrar que tinha condições de ser presidente. Depois, com o Plano Cruzado, nós teríamos condições de legitimar o governo. E quando o Plano Cruzado fracassou, vamos dizer assim, eu tinha a seguinte coisa na mente. O que nós vamos fazer agora? Voltar àquele sistema de recessão, restrição? Resolvi fazer a correção monetária mensal. Por causa disso, dizem: “A inflação foi a
1.000%”. E a inflação que era de 0,35% e agora foi a 10%? A quantos mil por cento foi? E o que acontece se eu perguntar hoje a todo o povo brasileiro o que era melhor, no tempo em que a inflação era corrigida todo mês para melhoria das condições públicas, ou realmente a gente ficar aí seguro dentro dessa situação? Não estou justificando a inflação, acho que a inflação é a pior coisa do mundo, é o pior imposto que existe, ele desorganiza a economia. Mas foi a solução que encontrei para que o povo brasileiro não sofresse aquilo que aconteceria se iniciássemos uma política recessiva. Quem pagou caro? Eu, o Sarney. Mas acho que o povo brasileiro teve grandes anos de felicidade durante aquele tempo com o Plano Cruzado.

Bastos – Como o senhor viu, na época, os políticos que se elegeram na esteira do Plano Cruzado, elogiando o seu governo, e assim que o plano não deu certo foram para a oposição criticar?

Sarney – Esse é um assunto extremamente delicado. Eu acho que naquele momento havia uma desorganização política muito grande, todo mundo achava que qualquer um podia ser candidato e ser eleito, e que era uma coisa muito fácil: era só bater no Sarney. Resultado: fizeram isso e foi um desastre total. O que ocorreu foi outra coisa, que até não devemos falar, porque o Brasil está querendo esquecer do que ocorreu na minha sucessão.

O Ulysses teve 8%, quase 9% dos votos na eleição para presidente. Ulysses, com o meu apoio, teria ido para o segundo turno. Porque não devemos nos esquecer de que o Lula foi para o segundo turno com 16%. E Ulysses, com o meu apoio, teria sido eleito presidente da República contra o Collor, porque o Collor saiu de 52% e terminou a eleição com 29%, e só quando ele ganhou no segundo turno. E ainda: como resultado desta posição minha é que o PT se consolidou naquele segundo turno. A partir dali foi que ele se consolidou, porque ele era um partido de 15% do eleitorado.

Bastos – O senhor, na véspera da posse do presidente Collor, ajudou-o no seu plano econômico, inclusive com o feriado bancário.

Sarney – Não ajudei em nada o presidente Collor. Como presidente da República, um homem que tem responsabilidade, faria tudo pelo país que fosse necessário. Não perguntei ao presidente Collor o que ele ia fazer, nem sabia o que ele ia fazer. Ele chegou, me procurou e disse que, em face de ele assumir no dia seguinte, teria que ter feriado bancário, porque senão seria uma corrida aos bancos. E era uma coisa muito lógica, que, na véspera de um presidente assumir, em quase todos os países, seja feriado bancário, para que não haja corrida. Não estava sabendo o que ele iria fazer e nem o que não iria fazer.

E eu não podia jamais me negar, como presidente, por motivos subalternos, porque o Collor estava me insultando e era contra mim. Depois iam dizer: “O plano não deu certo porque o Sarney não quis fazer o feriado bancário”. Então, de minha parte, agi com absoluta correção. Não via o homem que tinha me atacado, via o presidente da República. Tanto que quando o presidente Collor foi me visitar, pouco antes da posse, ele quis falar sobre esse assunto. Ele me disse: “Presidente Sarney, o senhor sabe, a campanha eleitoral…”. Antes que ele iniciasse, eu disse: “Senhor presidente, o senhor está dispensado de tratar desse assunto comigo. O senhor é o presidente do meu país, e eu sou o presidente que está deixando o poder. Estou aqui para justamente ajudar o país naquilo que for necessário”.

Bastos – Quando o senhor assumiu a Presidência, o presidente Figueiredo não lhe passou o cargo. Havia uma mágoa dos militares pelo fato de o senhor ter deixado o PDS e ter apoiado Tancredo Neves? Como ficou a sua relação com os militares depois da sua saída do PDS e de se tornar presidente da República pelo PMDB?

Sarney – Quando renunciei ao PDS, tinha em mente que a minha carreira política estava totalmente encerrada. Eu então achava, como tantas vezes na vida achei, que ia voltar a escrever livros — sempre com a frustração de querer escrever livros. Tomei aquela decisão porque estávamos em um projeto de abertura política, de chegarmos à democracia. Tanto que eu participei desse grupo, nós lutamos com o Petrônio Portella, com o Krieger; fui o relator da emenda constitucional que acabou com o AI-5. Quando houve o AI-5, fui o único governador do Brasil que protestou contra ele; nenhum outro governador deste país protestou. Isso é história. E me preparei também para ser cassado, mas não fui porque estava fazendo um bom governo no Maranhão. E fazer um bom governo é sempre uma coisa que pesa bastante nas decisões que se tem que tomar. Além disso, o presidente Costa e Silva, justiça se lhe faça, também tinha a visão de não querer desorganizar o país. Ele não ia cassar nenhum governador porque isso poderia levar a um desmanche da Federação. Ele mesmo teve a oportunidade de dizer isso. Então, quando larguei o PDS, fui para casa achando que não tinha mais nada a fazer. Primeiro, porque era contra a solução que estava sendo dada pelo governo; não queria participar dessa solução, não tinha mais porque participar. Segundo, estava meio desconfiado de que o presidente Figueiredo estava tentado a prorrogar o seu mandato. Tinha a sensação de que ele estava tentado um pouco a isto.

Bastos – Por quê?

Sarney – Porque o Brizola tinha falado que aceitava a prorrogação do mandato do presidente, e tinha também o Fernando Santana, do Partido Comunista, que disse que as esquerdas apoiariam essa prorrogação, para fazer a eleição direta dois anos depois. A solução que estavam dando era o Maluf; era uma solução para criar um impasse, porque sabiam que aquela coisa ninguém aceitava, como nós todos não estávamos dispostos a aceitar. Havia um grupo muito forte nesse sentido, e aí eu disse: “Não tenho mais nada o que fazer. Vou escrever meus livros porque até hoje minha vida teve duas vertentes: a literatura e a política. Eu me casei com a política, mas eu até hoje tenho uma paixão pela literatura muito grande”. E fui para casa.

Um belo dia, Ulysses Guimarães vai à minha casa, e eu sempre me dei muito bem com ele. Politicamente nos desentendemos no fim do governo, mas na realidade Ulysses era um homem educado, e durante todo o tempo que nós nos conhecemos, desde quando ele foi presidente da Câmara no Rio de Janeiro e eu deputado, nós tivemos um excelente relacionamento. E, nos momentos mais difíceis, Ulysses me procurava para termos um entendimento, de que maneira podíamos ajudar, e para evitar que o pior acontecesse para o país. Eu gostava do Ulysses. Aí, ele me disse: “Sarney, você tem que ajudar, nós temos que encontrar uma solução, isto vai ser uma coisa muito difícil, e você é um homem público…”. Enfim, essas coisas que se dizem. Eu, então, disse: “Ulysses, eu não quero mais de maneira nenhuma participar desse processo. Minha carreira política está encerrada”. Mas o destino da gente a gente não comanda. E os fatos continuaram, mas eu não tinha nenhuma intenção naquele momento, até porque não havia essa perspectiva do Tancredo ganhar a eleição, nem de que ainda havia muitas coisas pela frente.

Bastos – Mas o senhor quis ser vice-presidente do Tancredo?

Sarney – Não, eu nunca quis ser vice-presidente, jamais aceitaria sê-lo; isso foram notícias que saíram na imprensa: jamais admiti essa hipótese. Pelo contrário; Tancredo chegou um dia, me chamou e disse que queria que eu fosse vice-presidente. Ele era um homem que tinha a sua maneira de pensar, achava que eu tinha um grande domínio do Colégio Eleitoral. E não era verdade. Eu não tinha domínio nenhum. Tinha, de certo modo, influência com algumas pessoas, mas não tinha nenhum domínio, até mesmo porque já tinha me afastado. Mas aí o Tancredo me disse que só deixaria o governo de Minas se eu fosse o candidato à Vice-Presidência. Eu disse que não, que ele encontrasse outro candidato, que ele procurasse, que eu seria o pior candidato a vice-presidente, porque eu era presidente do PDS e isso não ficava bem, o povo não olhava bem; ele ia criar problema nas hostes dele. Mas ele me disse que sabia mais do que eu que se eu não fosse ele não ganharia e não deixaria o governo de Minas para concorrer à eleição. Eu então aceitei, mas disse-lhe: “Tancredo, você está em absoluta liberdade para escolher outro nome. Mas, se isso for necessário, eu não me recuso a prestar esse serviço”, sabendo que era uma situação muito difícil para mim, como foi.

Não é fácil assumir aquela posição de ser candidato a vice-presidente numa chapa com pessoas que você tinha como adversários até a véspera. As pessoas pensam sempre sobre as outras de uma maneira equivocada. Mas não, para mim foi muito difícil, muito traumático, um grande sacrifício que eu fiz ter aceito naquele momento. Houve um momento em que houve reação a esse respeito. E o Aureliano Chaves foi muito firme, e disse: “Você tem que ser candidato”, e aí não tive como deixar de ser. Se eu tivesse tido uma maneira de não ser candidato, posso dizer que eu não seria.

Bastos – Por que o Figueiredo não passou o cargo para o senhor?

Sarney – Figueiredo está morto. Então, evidentemente, essa pergunta você já nem pode fazer para ele. Eu não posso responder, porque não sei. Mas ele teve a oportunidade de dizer que não passava a faixa porque achava que juridicamente não seria eu. Mas, no fundo do meu sentimento, acho que ele não passou por uma questão pessoal comigo.

Bastos – Ele não gostava do senhor?

Sarney – Acho que naquele momento ele estava com um grande ressentimento em relação a mim.

Bastos – Recentemente o Newton Cruz disse que o Maluf o procurou para impedir a posse do Tancredo Neves. O senhor percebeu que isso estava ocorrendo? Em algum momento os militares se agitaram, mesmo depois do senhor ter assumido?

Sarney – Eu não tenho conhecimento disso. No momento em que me engajei no projeto do Tancredo Neves, tive a oportunidade de dizer que tinha que ter uma cobertura militar para poder assumir a Presidência da República, que não bastava somente ganhar no Colégio Eleitoral. Disse isso, ele também concordou, e estabelecemos um comitê, que começou, muito fechado, a trabalhar nesse sentido. Esse comitê funcionou muito bem. Quando o Tancredo foi eleito, já tinha um dispositivo militar apoiando a abertura política capaz de enfrentar qualquer resistência. Devo dizer que à frente dele estava o general Leônidas Pires Gonçalves, que era comandante do 3º Exército, mas nessa época ainda não estava convidado para ministro do Exército; veio a ser depois. Encontrava-se comigo muitas vezes na Academia de Tênis, quando ele vinha para reunião do alto comando. E ele também, que era muito ligado ao ex-governador do Paraná José Richa, ao Afonso Camargo, muitas vezes se reunia com Afonso, no seu apartamento. Nós estabelecemos esse ponto.

Em relação à Aeronáutica, tivemos o apoio e a coordenação do brigadeiro Murilo Santos, que tinha sido ajudante de ordem do general Castelo Branco. Ele foi o homem que começou as articulações, depois o brigadeiro Moreira Lima. O brigadeiro Moreira Lima também juntou-se, e o Aureliano Chaves, por meio do almirante Maximiano da Fonseca, encarregou-se de estabelecer uma ponte com a Marinha. De maneira que quando estávamos prontos para ganhar no Colégio Eleitoral, havia uma base militar de sustentação. Base essa que apoiou a abertura política, porque foram as pessoas que estavam com Tancredo e comigo que fizeram
a transição democrática com os militares e não contra os militares.

Bastos – O senhor acha que os militares estavam rachados nesse momento? Uma parte estava com vocês e outra parte querendo continuar a ditadura?

Sarney – Eu não sei se a outra parte queria a continuação ou não. Eu sei que nós tínhamos que tomar todas as nossas providências, no sentido de que o Colégio Eleitoral, no momento em que se decidisse, essa decisão fosse acatada.

Bastos – O senhor, quando veio o movimento de 64, optou pela Arena. Em algum momento pensou em se filiar ao MDB? Por que essa escolha?

Sarney – Como eu disse, cada um de nós, políticos, temos o nosso Estado como base de tudo. No Maranhão, as forças que existiram eram as forças mais retrógradas, que eram do velho PSD. Os homens que tinham uma visão ideológica já tinham saído do Maranhão, e estavam na aventura nacional: o Neiva Moreira, que era meu companheiro de partido, e o Renato Archer. Os dois já não faziam parte da política do Maranhão, já faziam parte da política nacional. Então, no Maranhão, tínhamos aquela velharia do PSD, que era toda ela ultrapassada.

Quando chegou a revolução, eu não podia ficar com essa gente. Eu tinha que ficar justamente contra eles, na linha em que estava. Mas eu não participei da revolução, não sabia dela, não conspirei. Mas no momento em que ela chegou e que, no Maranhão, ela passou a ser um instrumento para acabar com o clientelismo eleitoral, para acabar com as oligarquias que existiam, para acabar com os eleitores fantasmas, que sem a revolução não teriam acabado, eu não podia ficar com os meus adversários, que eram aqueles que estavam lá. Tanto que a revolução no Maranhão foi extremamente popular. Fui eleito por eleição direta, em votação extraordinária. E as pessoas que eram contra a revolução no Maranhão eram absolutamente retrógradas, não representavam nada; essas pessoas eram nossas inimigas, representavam o atraso. Não havia nenhum problema ideológico. Quer dizer, o Brasil é muito grande, no Maranhão não existia esse problema ideológico. E como as eleições eram diretas, não havia interferência de nenhuma maneira; eu já era candidato quando a revolução veio. Não fui eleito por indicação da revolução. O que a revolução fez foi não me tirar da disputa eleitoral. O que ela fez? Ela realmente saneou o eleitorado do Maranhão. Isso é verdade. Há inclusive uma história para contar: eles compravam retratos em Teresina, naquelas outras cidades, e levavam para o Maranhão para fazer títulos falsos. E uma vez o juiz eleitoral, quando foi fazer a revisão que anulou todos, encontrou uma família Kodak. Eles não tinham nem nome para botar, botaram o nome da máquina. João Kodak, Antônio Kodak, Raimundo Kodak, Pedro Kodak, Maria José Kodak; era uma família de Kodak, tinha mais de mil eleitores dos Kodak no Maranhão. E a Kodak não sabia que tinha essa gente dela votando no Maranhão. Foi esse o fato. Fui governador do Maranhão durante esse período todo. Não cassei uma pessoa no Maranhão, não aposentei; o Maranhão não precisou de anistia, porque não teve nenhum pedido de anistia, ninguém foi punido. Eu não criei comissões de inquérito. E mais ainda: sem interferência dos militares. Jamais deixei que qualquer militar interferisse no meu governo.

Bastos – Quando Pedro Aleixo não assume a Presidência, Carlos Lacerda procura Juscelino para criar a Frente Ampla. Por que o senhor não participou da Frente Ampla, sendo o senhor tão ligado à UDN?

Sarney – Porque a Frente Ampla não era um movimento da UDN. Era um movimento do Carlos Lacerda para ser candidato à Presidência da República. Não tenho nada contra o Carlos, eu gosto demais dele, ele foi um grande amigo que tive, um líder, trabalhei com ele. Mas ele tinha o seu destino, seu temperamento político. E ele, então, fez uma coisa que para a UDN era inadmissível: para derrubar o Juscelino ele uniu-se ao Jango. E mais do que isso. Estava presente na Frente Ampla também o Renato Archer, que era do Maranhão. E eu, governador do Maranhão, não estava nem sabendo o que acontecia no Rio de Janeiro. Eu estava metido lá em restaurar o Estado no planejamento e levar o Maranhão a ser um grande Estado. E terminou sendo, naquele movimento da revolução dos poetas, vamos dizer assim, que houve no Maranhão, no qual coube a mim ser o líder dessa geração. O Estado tomou projeção nacional, nunca tinha dado um ministro de qualquer tribunal. E depois desse tempo, com tudo isso, já deu presidente da República, ministro de Estado, ministro do Supremo Tribunal e passou a ter uma grande expressão nacional.

Bastos – Quando o Médici procurava contornar a candidatura de Ernesto Geisel tentando apresentar um civil, Leitão de Abreu, não ocorreu à Arena apoiar essa intenção? Não houve aí uma contradição: Médici, o linha dura, oferecendo um atalho por meio de uma solução civil, e Geisel, defensor de uma abertura lenta, gradual e segura, dando margem a que se estendesse a intervenção militar?

Sarney – Depois do Médici foi um interregno entre os dois grupos militares que se digladiavam: o grupo da linha dura e o grupo do Castelo, dos oficiais que desejavam que a revolução voltasse ao caminho da normalidade. E Geisel, desde o primeiro dia do governo do Médici, já era o candidato. Porque o Orlando Geisel, como ministro do Exército, tenho a impressão de que era o fiador — não conheço esses detalhes, não tinha intimidade nem relações maiores para conhecer; eu estava lá no meu canto, enquanto isso se processava na cúpula militar. Mas, como analista político, de longe, hoje, a minha impressão é que o Geisel já era o candidato. Seria o Orlando Geisel; como ele não teve condições de saúde para ser o candidato a presidente da República, o Ernesto Geisel o foi. E eu acho que o Ernesto Geisel merece um estudo muito isento na história do Brasil, porque ele foi um homem que lutou pela abertura democrática, enfrentou os seus colegas, o que não é fácil, e de certo modo, com aquele estilo dele, conseguiu que fizéssemos avanços importantes.

Bastos – O senhor acha que o governo Castelo Branco representou a UDN sem udenismo?

Sarney – Ele era realmente um udenista, no sentido de que ele era um intelectual, que tinha uma visão do poder muito intelectualizada, e, ao mesmo tempo, o Castelo era um militar que toda a vida tinha sido um legalista. Só ele poderia naquele momento assumir a Presidência da República. Todos os outros militares eram controvertidos. O Castelo, não. O Castelo tinha o respeito de toda a classe política, não só da UDN, como também do PSD e de todas as forças políticas. Tanto que ele foi eleito por todo mundo, inclusive pelo Juscelino, porque ele era um homem digno, correto, honrado. Como eu disse, o poder tem as suas circunstâncias. Ele entrou, a linha dura foi em cima dele para tirá-lo do poder, ele teve que reagir, e a revolução tomou esses outros caminhos que não devia ter tomado.

Bastos – Tão logo o senhor se sentiu confortável na Presidência, por que achou indispensável lutar pela manutenção do mandato de cinco anos?

Sarney – Em primeiro lugar, quero lhe contestar: nunca me senti confortável na Presidência, sempre me senti desconfortável. Mas é uma boa pergunta. Porque se criou no Brasil a história de que fui atrás de um mandato de cinco anos. No dia em que eu assumi a Presidência da República, no Congresso Nacional, me deram para assinar um livro que todos os presidentes assinam quando assumem, o qual dizia que o meu mandato seria vencido somente no ano de 1991. Eu teria seis anos de mandato. O meu mandato era de seis anos. Isto estava escrito no meu livro de posse! Assinado por Ulysses Guimarães, por todos os líderes que faziam parte da mesa. O que ocorreu? Eu, na minha ingenuidade, quando surgiu o negócio de reduzir o mandato para quatro anos, achei que se aceitasse e dissesse que renunciava a um ano do meu mandato, estaria fazendo um grande gesto. E aí funcionou o poeta Zé Sarney e não o político Zé Sarney.

Resultado: abri mão de um ano de mandato e todo mundo disse que eu queria um ano a mais. Como todo mundo queria ser presidente e achava que ia ganhar a eleição, queria a eleição logo. Esse é que foi o grande problema, e criaram essa história que até hoje todo mundo fala: “O Sarney passou o tempo todo querendo mais um ano de mandato”, quando eu tinha abandonado um ano. E devo até dizer que não segui um conselho, dos poucos que o presidente Geisel me deu. O presidente Geisel um dia me ligou, até estranhei, e me disse: “Sarney, eu quero lhe dar um conselho. Seu mandato é de seis anos. Não se meta em negócio de mandato. Deixa a Constituinte resolver o que ela quiser. Se ela diminuir o seu mandato, você vai ao Supremo Tribunal com a carta que o Congresso lhe deu”. Ele estava certo. O Supremo Tribunal me daria os seis anos porque eu tinha o direito, o mandato que eu tinha era de seis anos. Mas aí funcionou, como eu disse, o poeta José Sarney.

Bastos – Olhando para trás, o senhor acha que cedeu demais ao grupo esquerdista do Ministério de Tancredo Neves?

Sarney – Não, de nenhuma maneira. Não havia esse conceito de direita e esquerda. Quer dizer, estávamos na idéia de reconciliar o país. Nós devemos aí fazer uma homenagem ao Tancredo Neves. Ele foi um homem que a história preparou para aquele momento difícil do país. E coube-me essa função, mais difícil ainda, de substituí-lo. Vamos, então, relembrar. Quando se procurou um nome para que o Jango pudesse voltar ao Brasil, e que não tivesse uma crise institucional, quem nós fomos buscar, unindo todos os partidos políticos capazes de ter essa união? Tancredo Neves. Foi o ministro do Jango para ele poder reassumir o governo. E ele não fez só isso.

Ele, na crise da dívida externa, naquele tempo, foi o único que reuniu todos os partidos políticos do Brasil e levou para Washington sob o seu comando para renegociar a dívida externa brasileira. Ele tinha uma tradição de conciliador que todo o Brasil conhecia. Quando o país foi buscá-lo para a função da transição democrática, é porque ele era o homem preparado pela história para aquele momento. Nenhum outro poderia ser. Ulysses tinha muito mais expressão popular do que Tancredo naquele momento, dominava o partido muito mais do que ele, tinha muito mais relações com os outros partidos; mas Tancredo era o único capaz de pacificar o Brasil inteiro. Se a história prepara um homem desses para esse momento e, de repente, ele desaparece, todo mundo há de compreender o que caiu sobre as minhas costas, a responsabilidade que eu tive naquele momento. Nós não tínhamos direita nem esquerda. Tínhamos a visão do Tancredo. Cheguei até a dizer: “Estou com os olhos de ontem. Mas estou vendo a necessidade que nós temos dos ideais do próprio Tancredo”. Ali estavam todos unidos. E a minha impressão, ainda mais como poeta, era de que todo mundo naquele momento ia unir as mãos, porque nós devíamos atravessar um período difícil, e eu achava que isso ia ocorrer. E mais do que isso: eu achava que todos iam dar as mãos. Todo mundo está muito esquecido disso: eu propus que fizéssemos uma espécie de Pacto de Moncloa no Brasil. Não sei se lembram desse fato. Convoquei todos os partidos, convoquei Ulysses ao comando desse processo. Mas aí cheguei à dura realidade de que os políticos não estavam interessados em se unir para fortalecer a democracia, mas cada um já estava querendo tomar o seu próprio caminho. E então não tivemos condições, senão entrar em uma “guerra campal” para salvar o país naquele momento difícil.

Bastos – Já que o senhor falou nisso, como o senhor analisa o jogo político dentro do seu governo?

Sarney – O jogo político durante o meu governo não se podia ver. Porque nós estávamos no meio do campo, no meio das boladas [riso], não estávamos na arquibancada. Nós estávamos envolvidos em uma luta campal e, como eu disse, é muito difícil a função de presidente da República. A gente tem que lutar todo dia pela sua legitimidade, pelos problemas das seis da manhã; e eu, como durmo pouco, passava quase as noites inteiras acordado também.

Bastos – O senhor tinha interlocutores na imprensa quando foi presidente?

Sarney – Não, até porque toda a minha vida tive um bom relacionamento com os jornalistas, baseado em um fato que nunca violei. Primeiro, nunca dei uma notícia que fosse intencionada, sabendo, como jornalista, que não se pode fazer isso porque você perde a credibilidade. Em segundo lugar, nunca deixei de dar notícias a que eu tivesse acesso. Essa relação sempre foi muito respeitada, isso me facilitou muito. Como eu sou um homem simples e conhecia todos esses jornalistas, falava diretamente com eles e tinha oportunidade até mesmo de ouvir suas críticas. Lembro que uma noite fui à casa do Castelinho — talvez o maior amigo que já tive, e talvez o maior jornalista brasileiro dos últimos tempos —, como presidente, para tratar de algum assunto. E quando era alta madrugada, o Castello me disse: “Sarney, você não está zangado com o que eu escrevi na minha coluna?”.

Eu respondi: “Castello, eu já estou na idade de não trocar de amigos”.

Bastos – Na sua opinião, o que atrapalha a utopia brasileira?

Sarney – Hoje, a falta de utopia. Acho que não podemos viver sem utopia. O mundo sem utopia é um mundo terrível. Em um seminário do qual acabo de vir, em Harvard, estávamos discutindo responsabilidades humanas, e me perguntaram também quase a mesma coisa: “Qual o senhor acha que é o pior problema que estamos tendo?”. Eu disse: “A falta de utopia. Porque o mundo sem utopia é condenado a ser um mundo no qual o homem tem aspiração a ficar gordo”.

Bastos – O senhor, quando era presidente da República, veio a São Paulo para entrega do prêmio Juca Pato e, no seu discurso, disse que o então senador Fernando Henrique Cardoso era um dos homens que apontavam e pensavam o Brasil do futuro. Como o senhor vê o governo dele?

Sarney – Não vou fazer nenhuma análise do governo do Fernando Henrique. Eu apenas digo aquilo que disse: cada governo vive as suas circunstâncias, e eu não sei quais são as circunstâncias dele. Assim como muitas pessoas julgam mal as minhas circunstâncias, eu também posso até julgá-lo algumas vezes, por não serem boas as circunstâncias que ele tem vivido.

Bastos – O que mais lhe emocionou na vida pública?

Sarney – O que mais me emocionou foi o seguinte: no dia em que saí da Presidência da República, antes chamei minha mulher e meus filhos e disse eles: “Nós vamos descer a rampa do Palácio, hoje termina o meu mandato. Aí fora tem uma multidão cobrindo a praça inteira. A metade está aí para vaiar o Collor, que está chegando, a outra metade está para aplaudi-lo. Todos os dois lados vão vaiar o Sarney. Nós vamos sair e pronto, mas vocês tenham a certeza de uma coisa”, eu disse para os meus filhos, “seu pai cumpriu com o seu dever naquilo que ele mais puramente pôde fazer”.

E aí desci com eles a rampa do Palácio. Quando cheguei no meio da rampa, não sei o que me deu, uma vontade de tirar o meu lenço do bolso. Não sei se lembram dessa cena. Tirei o lenço branco, como se dissesse: “Está aqui a minha despedida, cumpri com o meu dever”. Acho que cumpri. E de repente houve um milagre. As duas facções que estavam ali para me vaiar, de repente, começaram a me aplaudir. E eu desci. Acho que homem público não chora em público. Aprendi a chorar com a garganta, de maneira que não chorei. Mas vi os jornalistas que me atacavam, que estavam todos ali dentro, e eles choravam dentro do ônibus; as pessoas que estavam ali na frente queriam atravessar, me cumprimentar. Quando cheguei ao aeroporto e vi as “mães do leite”, com meninos no braço, mais de duzentas mulheres com crianças de leite no colo, eu me emocionei; guardo até hoje uma lembrança extraordinária daquele dia. Eu hoje voltei a ser cidadão comum, o primeiro presidente do Brasil que voltou a ser cidadão comum. Ando em todos os aeroportos, pego o meu carrinho de mão, pego a minha bagagem, entro no avião; todo mundo me trata bem, todo mundo me diz: “O Sarney é um homem bom, porque foi um bom presidente”. Todo mundo tem uma palavra de carinho para comigo. Isso me dá a maior felicidade. O Brasil fez muito por mim, o povo brasileiro fez muito por mim. E eu só tenho que procurar fazer o máximo que eu puder pelo Brasil.

Bastos – O que o senhor acha que lhe deu forças nesse momento em que o senhor desceu a rampa com toda aquela multidão?

Sarney – Como eu disse, sou um homem de fé. Acho que foi o primeiro milagre da irmã Dulce. Eu até hoje ando com uma medalhinha da irmã Dulce no bolso.

 

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