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Coincidências da História

A festa de 50 anos da Declaração de Independência Americana, no dia 4 de julho de 1826, foi marcada pelo falecimento de seu principal estimulador, John Adams, e do autor de seu texto, Thomas Jefferson. Um estava em Massachusetts, outro em Virgínia, mas Adams declarou: “Jefferson vive.” Queria dizer: para sempre.

Esta semana o mundo celebra outra coincidência: a morte, no dia 23 de abril de 1616, em Madrid, de Miguel de Cervantes, e, em Stratford-upon-Avon, de William Shakespeare. Se, na Espanha, 23 era 22, e, na Inglaterra, 23 de abril era 3 de maio, em função dos calendários, isso é detalhe.

Os dois são personagens misteriosos e reveladores: enquanto mostram as profundezas maiores da alma humana e de seu tempo e espaço, as histórias de suas vidas — hoje reviradas e pesquisadas de uma ponta a outra — estão cheias de enigmas.

Se pensava que o tempo que Cervantes fora prisioneiros dos turcos, em Argel, quando voltava de um período na Itália, para onde fugira (talvez) de uma ordem de prisão assinada por Felipe II, e quando participara da batalha de Lepanto, “a mais alta ocasião que viram os séculos passados, os presentes, nem esperam ver os vindouros”, e perdera o uso da mão esquerda, e recebera o apelido de Manco de Lepanto — pois bem, que sua prisão e tentativas de fuga heroicas estavam narradas por um frei, mas se soube que o autor era um outro padre, e agora se suspeita que era o próprio engenhoso fidalgo.

Já de Shakespeare há quem ponha em dúvida a existência. Quer dizer, ele não seria ele, seria o Earl of Southampton, a quem ele (o lorde?) teria auto-dedicado seus poemas.

Cervantes, que escreveu os dois Quixotes — El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha e El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha — em parte noutra prisão, teve uma disputa constante com Lope de Vega sobre como se devia escrever teatro. Mal sucedido, desistiu: “Aburríme.” Já Shakespeare, popularíssimo em seu tempo — ao ponto de se tornar rico com literatura, coisa rara — foi considerado, durante muito tempo, menor que Ben Jonson. O espanhol queria ser bom poeta, o inglês foi, e grande.

A última coisa que Shakespeare escreveu foi seu testamento, onde deixou, lembrança de última hora encaixada entre linhas, sua segunda melhor cama para a mulher. Cervantes, nas vésperas da morte, colocou a dedicatória em Los trabajos de Persiles y Sigismunda (obra de que tenho um exemplar da 1a edição): “Puesto ya el pie en el estribo, / con ansias de la muerte, / gran señor, esta te escribo.”

De nenhum dos dois se conhece retrato autêntico. Mas o que conhecemos, o que nos ilumina, são os imortais personagens que criaram, as palavras que escreveram, os mundos pelos quais conhecemos o nosso mundo. Cervantes escreveu o maior de todos os monumentos literários, o D. Quixote, e Shakespeare essa pirâmide de Quéops da dramaturgia e os sonetos que, pouco lidos, são diamantes azuis.

José Sarney

 

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