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Chuvas & Números

Muitos me escrevem e falam, de viva voz e por telefone, que estamos tendo em fevereiro o que não tivemos por mais de três anos: um inverno destes que meu irmão Evandro chamava de tradicional, embora os números estatísticos digam que ainda não atingimos a média histórica. Mas números para lá, são notícias animadoras, num tempo em que somente saem as ruins.

A Litorânea, começada ainda quando eu era Governador, inaugura uma visão que nunca tínhamos visto: alagada, sim, alagada, não pela maré — não as altas de agosto —, mas pela chuvarada que São Pedro abriu e que tem nosso agradecimento e louvação.

Zé Piriquito, cearense muito simpático, carregador — no tempo em que essa profissão ainda existia e não tinha sido abocanhada pelos caminhões —, uma vez quando lhe perguntei, estudante mal chegado: “Como vão as coisas, Zé Piriquito?”, me respondeu: “Tá chovendo tanto que tá morrendo sapo afogado.” Não sei se a Litorânea os trouxe das dunas para tomar banho na praia, mas a verdade é que chuva é benção dos céus.

Quando eu era menino em São Bento e elas chegavam, tudo mudava. Os patos do campo e as marrecas voltavam e faziam zoada e os campos eram tomados pelas águas e a canarana subia e o andrequicé e o arroz barbo tornavam tudo verde e o horizonte parece que descia e era um pedaço dos céus em que terminava a Terra. As mulheres ficavam mais assanhadas, os homens mais cordatos e carinhosos, os bichos mais alegres, pássaros cantavam e as pescarias faziam que no começo da noite o pescadores de bagrinho descessem em suas canoas e parassem perto das touceiras de mururu (que no Rio tem o nome de gigoga ou aguapé) e jogassem os pequenos anzóis de vara curta e linha pequena, com isca de bicho de coco, e era hora de vigiar e bater no fundo da canoa com força e eles soltavam e lá ia de novo, até completar um caldeirada, comida com pinga e eram festas nas casas que só terminavam de madrugada. Participei de muitas delas, em Pinheiro e São Bento, e participei de uma pescaria dessas com muita muriçoca e nossas pernas metidas em sacos de estopa.

E os banhos de biqueira nas nossas casas? Tirávamos a roupa e rumávamos para o quintal onde a calha colhia águas do telhado grande e nós nos deliciávamos, embora minha mãe ficasse gritando: “Volta senão você vai ficar gripado.” Não ouvíamos nada, só a cachoeira do buzinote caindo nas nossas cabeças.

Chove muito agora. Fico satisfeito só com a notícia e me delicio nostálgico das saudades de menino. Mas chegam e me dizem que o Maranhão em 2015/16 caiu 10,2% no PIB, e no tempo de Roseana crescia 6% ao ano e também chovia, que em 2013/14 foram criadas 42 mil vagas de emprego, e em 2015/16 perderam o emprego 34 mil trabalhadores, e com Roseana o Maranhão crescia mais do dobro da média nacional, e tínhamos o 2º melhor desempenho do Brasil, e hoje temos o 3º pior…

Mas, no meio de tantos males, saudemos a chuva!

 

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