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Centenários

A Academia Maranhense de Letras, em sua celebração de aniversário, homenageou três acadêmicos que completariam cem anos agora em 2016: José Pires de Saboia, Franklin de Oliveira e Erasmo Dias. A lembrança deles é muito oportuna. Para mim, são figuras muito próximas.

Sabóia foi meu chefe em O Imparcial e meu Secretário de Justiça. Foi meu grande amigo, meu padrinho de casamento, grande inteligência e um dos melhores textos da imprensa, além de grande jurista. Era uma figura única, com sua aparência desarranjada, fumando vários cigarros ao mesmo tempo, a roupa amassada, que escondiam a lucidez de sua inteligência. Cearense, viera para o Maranhão a pedido de João Calmon, numa missão que considerava transitória. Logo se empolgou na luta pela redemocratização e contra o queremismo de 1944. Não voltou mais para o Ceará, mas ele incorporou o Maranhão como sua terra e nós o adotamos.

Ainda com saudades do tempo da boemia intelectual do século XIX, Erasmo Dias costumava, toda noite, reunir-se com os poetas e intelectuais da terra no bar do Pataquinha, um português que tinha uma cervejaria muito popular no Maranhão. Era um intelectual brilhante, jornalista e contista, ídolo de minha geração.

No sesquicentenário da Independência fizeram o que se chamou a diplomacia dos ossos: trouxeram os restos do Imperador para o Brasil e os fizeram percorrer todos os estados. Quando estava em São Luís, uma noite, às duas horas da manhã, Erasmo teve uma ideia brilhante: “Dom Pedro I está no Palácio dos Leões. Convido vocês a irem comigo visitar os ossos do Imperador.” Dirigiram-se, então, Erasmo Dias e um grupo de bêbados ao Palácio para prestar sua homenagem. Subiram as escadarias. Não havia ninguém no Palácio. Entraram no salão e ficaram em volta do caixão.

Erasmo Dias, então, fechou a mão e deu três pancadas em cima do caixão do Imperador dizendo: “Gabiru! Gabiru! Papaste as melhores mulheres do reino!”

Já Franklin de Oliveira foi daqui para o Rio de Janeiro, onde também fez carreira nos Diários Associados. Tornou-se logo muito conhecido por sua coluna em O Cruzeiro. Depois, na década de 1950, foi candidato a deputado federal pelo Maranhão. Ele era de Caxias, e Eugênio Barros o tinha convidado. Perguntou se eu queria apoiá-lo, porque estava montando uma equipe e me conhecia, nós tínhamos amizade e eu era do grupo dos novos intelectuais do Maranhão. Aceitei, mas ele não se elegeu.

Em sua campanha, Franklin usou uma música que anunciava que era um “nome nacional”. O Vitorino Freire usou isso e passou a provocá-lo, dando-lhe Nome Nacional como apelido. Ele ficou furioso, e quanto mais se irritava, mais seus adversários o provocavam. Não fez como Odylo, que, na mesma campanha, foi chamado de Vaca Atolada e assumiu o apelido, começando os comícios anunciando: quem vos fala é o Vaca Atolada…

Odylo foi o quarto homenageado da festa de aniversário da Academia: colocaram em destaque, numa vitrine no salão, o fardão, o chapéu e a espada que usou na Academia Brasileira de Letras, ligando as duas academias através de sua figura generosa de grande poeta.

José Sarney

 

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