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Carnaval sempre Carnaval

Eu, que estou em pleno vigor da juventude — e todos os dias os jornais, ao citar meu nome, revelam aos leitores esta minha fraqueza —, fico todo irritado quando ouço essa história de “bom era no meu tempo”, “ah! que saudades do meu tempo” e outros lamentos saudosistas. Bom mesmo é o tempo de hoje. O tempo bom do meu tempo era o tempo daquele tempo, que não conhecia o tempo futuro. O Padre Vieira, lembrando o que diria 250 anos depois T. S. Eliot, o grande e sempre louvado poeta, falou que “se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”.

Carnaval então é momento dessas baboseiras, os velhos reclamando das escolas de samba, feéricas, deslumbrantes, despejando alegria pela Avenida, comparando-as com as batalhas de confete e o entrudo, que era a imbecil brincadeira de um sujar o outro. Outros reclamam do cheiro de urina dos foliões apertados pelas latas de cerveja, contrapondo ao cheiro bom do Rodó — a marca de lança perfume mais popular e representativa dos antigos carnavais. Li que um baiano do Campo Grande, em Salvador, onde a folia é a mais densa daquelas bandas, disse que já estava esperando o cheiro do “descarrego carnavalesco” e passaria esses dias limpando as calçadas e tapando o nariz. Bobagem e hipocrisia porque ele é um privilegiado, não precisa sair de casa para ouvir a bela Ivete Sangalo e os trios elétricos, herança de Dodô e Osmar.

Ora aqueles tempos dos carnavais antigos! Não se via esse desfile puro e esplendoroso das mulatas, loiras, morenas sem vestidos, seios à mostra, além das partes que têm vida própria, pululam e que são vistas quando passam popozudas. Tudo belo, a frente e o atrás. Bendito carnaval do presente, quando ninguém tem de temer nada nesse jogo de Adão e Eva, porque o nosso Ministério da Saúde continua distribuindo camisinhas, com direito a lubrificantes e antissépticos. Ora bolas para o passado, com aquelas fantasias cafonas, cheias de babados, chapéus de crepom colorido e colares havaianos que, suados, manchavam as roupas. E o mais difícil: homens para um lado e mulheres para outro, só olhares e desejos. Quando muito um aperto de mão acochado e um sarrafo leve de corpo com corpo.

Que diferença louca entre blocos antigos, de canções nostálgicas, e a beleza de Alcione, no seu gingado maranhense, cantando as músicas do Bulcão, do Zé Pereira e do saudoso Nonato Buzar. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão”, cantava o Humberto do Maracanã.

Na verdade o cheiro dos suores do passado e o esplendor dos biquínis de hoje são saudades que não morrem. Como são boas! Noutros carnavais e neste carnaval.

Plagiando o Chagas, do Boi da Maioba, vamos “meu povo, guarnecer nosso belo e alegre Carnaval, de novo!”

José Sarney

 

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