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Carnaval como em Roma

O Padre António Vieira passou um tempo em Roma, tratando da anistia à sua punição pelo Santo Ofício — o que conseguiu, com uma bula papal anulando a condenação e dando-lhe foro privilegiado, só podia dali em diante ser julgado pelo próprio Papa.

Quem se apaixonou por ele — no bom sentido — foi a Rainha Cristina de Suécia, grande mecenas das artes e das letras. Então, quando estava em Roma e era Carnaval, ele pregou na Igreja de São Lourenço.

Além de falar das tentações, o Padre faz uma descrição do Carnaval: “Tudo o que vai ver, e ouvir o passatempo e gosto são nestes dias Graças, Chistes, Motes, Facécias, Bufonarias: Metamorfoses de trajos, equívocos de pessoas, transfigurações dos sexos, e da espécie; máquinas jocosas, Invenções ridículas; enfim quanto sabe excogitar o engenho, a subtileza, e a ociosidade para mover o riso. Para isso se veem cheias as praças, as ruas, os balcões, os teatros: todos a rir, e tudo para rir.”

O Brasil, ao mesclar esta festa romana com as festas trazidas de África, deu vida a uma cultura da alegria que é um milagre que une o povo brasileiro nos momentos mais difíceis — e mesmo na disputa inarredável por sua escola de samba durante a apuração dos resultados há um momento de emoção que para o País e o suspende pelo fio de muitas lágrimas. Fizemos uma festa democrática, em que os ricos se vestem de sujos e pobres e os pobres de ricos, nobres e reis.

Aqui, no Maranhão, tenho mais o Carnaval por símbolo, por saudade dos velhos tempos, do que pela realidade da participação vivida. Isso não impede de dar uma olhadela nos desfiles das nossas escolas, que desejam imitar as do Rio e de São Paulo, mas à falta da invenção dos fenícios, a moeda, contentam-se com a alegria pura dos pobres. E são belas, com a simplicidade e o sorriso do povo.

A primeira lembrança do Carnaval que me ocorre é de Pinheiro, eu tinha cinco anos. Um mascarado solitário na pequena vila samba, e minha mãe manda fechar a porta. O grande desfile era o corso, aos domingos, em São Luís. As pensões de “moças livres” desfilavam nos raros caminhões vestidas de chita ramalhuda, cantando e sambando. O corso desapareceu, mas me dizem que agora está reaparecendo no Piauí, um bom exemplo. E as fantasias procuravam a originalidade ou se repetiam na igualdade dos fofões, que desta monotonia tiravam seu anonimato e proteção para a brincadeira com voz de falsete. E o que mais se desejava era saber quem estava debaixo do fofão e a gente poder gritar: “Eu te conheço Carnaval!” E em Pinheiro, num Carnaval, descobriram que um fofão era o Padre. Foi uma gozação geral.

Voltando ao Padre Vieira, ele concluía: “Enfim este ano será como os demais: Vós, Senhor, sereis o deixado, e o mundo o buscado, e o seguido. Vós estareis aqui [na igreja] quase só, e Roma no Corso.”

São Luís, não estando no corso, que ainda não voltou aqui, estará nas ruas, lembrando o Barleus, quando afirmava que “não existe pecado debaixo do Equador!”

 

José Sarney

 

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