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Bandeira Tribuzi, 90

No fim da primeira metade do século XX éramos um grupo de jovens intelectuais com sonho de escrever: Lucy Teixeira, Luís Carlos Bello Parga, Carlos Madeira, Domingos Vieira Filho e eu. Ainda estávamos no mundo de antes da Semana de Arte Moderna, do parnasianismo, do soneto petrarquiano. Nossa audácia apenas chegava ao verso branco, sem rima ou métrica.

Nos reuníamos no Centro Cultural Gonçalves Dias, no sonho da Atenas Brasileira, na tradição de que falávamos o melhor português do Brasil. Cultivávamos Corrêa de Araújo, o grande poeta parnasiano. Pelo folclore que girava em torno de sua pessoa, pelo tipo humano, pela sua vida boêmia, descompromissada com tudo que era racional. Morava, solteirão, num quarto de pensão.

Tribuzi — José Tribuzi Pinheiro Gomes —, um dos cinco maiores amigos que tive em minha vida, chegou de Portugal. Seu pai, velho comerciante português, ia à missa das cinco horas da manhã na Igreja do Carmo, para depois ir abrir seu armazém. Na hora de levantar-se a hóstia, toda manhã, ele dizia: “Senhor, dai operários para vossas messes.” Os portugueses do Brasil colonial tinham por objetivo na vida ter um filho religioso.

O velho Pinheiro Gomes mandou Tribuzi para um seminário franciscano em Portugal. Ele cursou-o e a isso deveu seu sólido conhecimento de humanidades. Um dia, Tribuzi não aguentou mais ser frade, fugiu— com o avô de aliado, que lhe financiou a fuga — para Paris e ali desapareceu. Depois de dois anos, seu pai conseguiu recambiá-lo para São Luís e colocou-o a trabalhar no Armazém Pinheiro Gomes.

Depois, em um dos seus sonetos camonianos, ele disse que chegou ao Maranhão, aos dezenove anos, com “Fernando Pessoa na bagagem”. É que ele trazia e revelava ao Maranhão, antes de chegarem ao Brasil, os poetas novos de Portugal, que ninguém aqui conhecia. Foi assim que, antes de todos, nós devoramos José Régio, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Botto e outros poetas portugueses, os poetas de Presença e Orfeu. Li, pela mão de Tribuzi, antes dos poetas modernistas brasileiros, os portugueses.

Naquele tempo apenas começara, com Thiers Martins Moreira e Cleonice Berardinelli, o estudo dessa geração da poesia portuguesa, com o merecido destaque a Pessoa e seus heterônimos.

Tribuzi nos descobrira através de uma série de poemas meus, que eu chamara de promenade solitaire. Por meu intermédio chegou ao resto da turma. O mundo que nos revelou foi um deslumbramento.

O seu impacto na literatura maranhense ainda não foi completamente avaliado. Esse impacto tem duas vertentes: essa, da liderança com que abriu nossos caminhos, e formou nossa geração; e outra, a sua mesmo, a do grande e imenso poeta que ainda encanta aos moços como nos encantou a nós. Capaz de inovar, e capaz também de cultivar o soneto — no que, aliás, seguia também o exemplo de Fernando Pessoa.

Seu desaparecimento, quando acabara de completar 50 anos, foi, para nós todos, mas especialmente para mim, um golpe enorme. Ele ocupava, e ocupa, um lugar em minha vida. E, sem dúvida, na vida do Maranhão.

 

José Sarney

 

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