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As Migrações Massivas

Desde 1992, pertenço a um órgão internacional de ex-presidentes da República e Chefes de Governo que se chama InterAction Council, composto de quarenta membros. Foi fundado pelo grande estadista japonês Takeo Fukuda, ex-Primeiro Ministro do Japão, e por Helmut Schmidt, Chanceler da Alemanha e um dos grandes homens de Estado da Europa, conhecido por seu talento e suas virtudes pessoais. Da América Latina eram três escolhidos: Miguel de la Madrid, do México; eu, José Sarney, do Brasil; e Raúl Alfonsín, da Argentina.

Ali convivi com grandes personagens mundiais. Do InterAction faziam parte Carter, Clinton, Valéry Giscard d’Estaing, Trudeau, o próprio Fukuda, Helmut Schmidt, Mikahil Gorbachev, Lee Kuan Yew, Felipe Gonzaga e tantos outros grandes homens. Discutíamos duas vezes por ano, tendo como convidados grandes conferencistas (McNamara, Kissinger…), e a temática era sobre assuntos mundiais da atualidade.

Mas recorro a essas lembranças para recordar a genialidade de Helmut Schmidt, o maior orador que conheci, de quem disse Élio Gaspari que, quando falava, era como se ouvíssemos um concerto de Bach. Numa dessas reuniões o tema era Os Problemas do Futuro da Humanidade: doenças desconhecidas, armas nucleares, vetores etc.

Helmut Schmidt propôs: “migrações massivas”. Isto há 30 anos. Ele, como profeta e homem público visionário, defendeu a introdução desse tema, dizendo que no futuro, com o fim das barreiras físicas e a formação de blocos regionais, as populações iam mover-se em busca de melhoria de vida, fugindo da miséria, do confronto de civilizações, das guerras, das perseguições religiosas e da insustentabilidade de alguns países, inclusive em balanço hídrico e alimentação — o que já se verifica, especialmente em alguns países da África.

Minha intervenção foi sobre armas nucleares: “enquanto existir uma ogiva nuclear na face da Terra, a humanidade estará sempre em perigo”. Hoje, quando assistimos ao começo de uma nova corrida armamentista, essa perspectiva nos assusta.

O que eu queria ressaltar é a genialidade de Helmut Schmidt ao prever as migrações e suas consequências. Hoje a Europa é invadida por refugiados do Oriente Médio e da África. Diariamente assistimos à tragédia da travessia do Mediterrâneo, com navios cheios de migrantes desesperados e quase morrendo. Podemos vê-los aqui mesmo na América Latina, com as migrações vindas do Haiti e da Venezuela, além das menores, de bolivianos, paraguaios e outros.

Pelo meu lado, agora que Trump e Putin acabam com os tratados de contenção nuclear INF (Intermediate-Range Nuclear Forces), de 1987, e START (Strategic Arms Reduction Treaty), de 1991, renovado em 1993 e 2010, e a Rússia desenvolve um míssil nuclear com cinco vezes a velocidade do som, em resposta ao anúncio americano de que desenvolve bombas nucleares de pouca potência (as velhas “bombas táticas”, que poderiam ser usadas mais facilmente por terem “danos limitados”), volto a ter medo de que o mundo possa acabar na insensatez dos homenzinhos e no inferno do holocausto nuclear.

José Sarney

 

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