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Aranhas, Mosquitos e Gias

São Luís para mim continua sendo a velha cidade dos “mirantes e azulejos”. Foi aqui que cheguei menino, descendo no Cais da Sagração. Indelével ficou a cidade dos meus primeiros anos de juventude, dos meus primeiros versos, das minhas primeiras paixões e dos meus primeiros encantos.

Dela enamorei-me profundamente. Vivi as noites de lua embarcando no luar para visitá-la e as noites escuras sonhando com os fantasmas dos sobradões adormecidos e com as lendas que povoavam o imaginário da cidade: a manguda, a serpente que dormia embaixo da Praia Grande e o carro de Dona Ana Jansen com os sons incomuns de suas rodas nas pedras de cantaria que calçavam as ruas. Pedras trazidas no bojo das caravelas, que saíam de Lisboa ou do Porto cheias de barricas de vinho, fazendas, quinquilharias, enxadas e machados, mas precisavam de pedra para o lastro que lhes permitiria enfrentar as ondas com as velas pandas, cheias do vento leste, dos conhecidos alísios nordestinos.

Hoje chego e não vejo mais a cidade do meu tempo

Desapareceu nas intervenções diversas que ao longo do tempo foram destruindo quarteirões para abrir avenidas, cortando as árvores das ruas e praças e agora deixando os sobradões velhos e belos agonizantes, sem que o poder público dê o menor sinal de que tenha qualquer sentimento de solidariedade com seus gemidos.

Um amigo meu contou-me, e isso motivou este artigo, que duas turistas em visita ao Maranhão, hospedadas no mesmo hotel que ele, diziam: “Esta cidade é linda, tão bonita, mas tão abandonada.”

A mesma coisa que, como contei aqui, disse um casal que visitou São Luís há pouco mais de um mês.

Não puderam fazer como o capitão holandês Morris, que, quando aqui chegou na invasão dos flamengos, repetiu o Padre D’Abbeville:

— “O Maranhão é o Jardim do Éden.”

A Unesco, quando reconheceu São Luís como Patrimônio da Humanidade, fez a exigência de praxe: “A cidade deve ser bem cuidada, zelada e preservada” — caso contrário, seria anulado o título. É o que temo, pois nunca presenciei tanto desprezo pela nossa capital.

E para igualar a seu destino o da cidade nova (depois da ponte sobre a ria Anil), surgiu algo inusitado: a invasão do São Francisco e da Ponta da Areia, além da zona que circunda a Lagoa — não de holandeses, mas de aranhas, mosquitos e sapinhos, nossas delicadas gias.

É que estamos vivendo tempos estranhos. Enquanto a cidade nova está cheia de aranhas, e as teias que elas tecem, num trabalho de filigrana, cobrem como neve, de brancura, os manguezais, a velha cidade dos mirantes e azulejos agoniza, coberta das teias negras do descaso.

As aranhas da Lagoa fazem suas teias nas árvores

As nossas aranhas de dois pés e quatro patas de Leão estendem as teias do abandono do tempo passado para cobrir o casario, as ruas de cantaria, a história e a tradição do Maranhão com a irresponsabilidade do homem-aranha que está subindo ladeiras e sobradões com os sapos nas costas.

São Luís Rei de França, salve sua cidade!

José Sarney

 

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