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Ano novo, vida nova

Esse ditado popular, velho que nem a Sé de Braga, em Portugal, onde as relíquias de São Gonçalo das Moças, com seu cinturão de corda, fazem milagres inacreditáveis, mesmo sem o Viagra, encerra uma sentença que nunca se cumpriu.

Ao contrário, ano novo, vida velha, que não se modifica com a simples passagem da meia-noite. Estas datas próximas – a missa do Galo e a virada do ano –, eram marcadas pela vigília, pela expectativa da transformação, uma pela encarnação de Deus, outra pela chegada do novo tempo. Hoje isso não importa mais, até mesmo porque já temos duas horas diferentes, uma na metade do Brasil e a outra, que resistimos para ficar como sempre foi. Mas houve um tempo em que tínhamos o horário de verão aqui também.

Eu era Governador e o grande Arcebispo Dom João Mota celebrava, na velha tradição, a missa cantada pelo orfeão dos Maristas, do qual eu tinha feito parte na minha infância. Cheguei às 12 horas, pontual, e o Arcebispo não apareceu. Esperei cerca de 50 minutos, e chegou Dom Mota, num passo devagar e me disse:

Desculpe, Governador, pensei que a missa seria na hora velha.

Gostava muito dele e fui logo cortando:

Esperaria Vossa Eminentíssima figura até de manhã!

No calendário litúrgico, o fim do ano pertence ao Tempo do Natal, que se estende até à Epifania, a manifestação do Senhor, marcada pela visita dos magos – e também por Seu batismo e pelo começo de sua vida pública –, comemorada dia 6 de janeiro. O Evangelho deste sábado é este mistério na fórmula de São João: “No princípio era o Verbo… e o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”

O começo do ano pertence, portanto, ao ciclo das festas natalinas, com a festa de Santa Maria, Mãe de Deus, como em nossa oração. Mas desde 1968 o Papa Paulo VI fez do 1o de janeiro o dia mundial da paz. No dia 8 de dezembro, festa de Nossa Senhora da Conceição, o Papa escreve a mensagem que inaugura o novo ano com o desejo de paz: segundo João XXIII, “paz baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor”. Assim, é a própria Igreja que une a festa religiosa com a festa civil.

Estamos aguardando o ano de 2017 com uma grande esperança de que ele traga melhores dias, que ele engula a crise, dê emprego aos desempregados, baixe o custo de vida, nos dê a fé da Oração de São Francisco e nos faça renovar a nossa crença de que “na vida tudo passa, só Deus não passa”.

O Padre Antônio Vieira fazia os votos de bons-anos, mas via em sua realização dificuldades, pois argumentava que, num mundo tão avaro, mal se encontrava um simples “bom dia”. Por isso no fim do ano deveríamos ser mais generosos e, em vez de desejar somente uma esperança de felicidade limitada, a devíamos desejar para muitos anos, não somente o que entrava, mas todos os outros que viriam.

No Maranhão a tradição sempre foi de festa, ceia, foguetes e café com bolo.

E conta-se que um português, no dia 31 de dezembro, chamou a mulher e disse:

Vamos matar um peru para a ceia de Ano; lembre-se que também é aniversário do nosso casamento.

E ela respondeu:

Mas, Manoel que culpa tem o peru pelo nosso casamento?!

Bons-anos!

 

José Sarney

 

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