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Aedes da Silva

Essa praga do Aedes aegypti continua assustando o mundo. Já contei que há alguns anos tomei parte em uma reunião do InterAction Council que relacionava como uma das ameaças ao futuro da humanidade as doenças desconhecidas. Hoje, o que nos ameaça é um vetor bem conhecido.

O bichinho é danado. Africano, tornou-se brasileiro cedo. Trouxe nossas primeiras epidemias, de febre amarela de 1685, no Recife, e de 1686, em Salvador, com alguns milhares de mortos. No século XX, Rodrigues Alves convocou Osvaldo Cruz para fazer uma revolução sanitária no Rio de Janeiro. A cidade era só epidemia: peste, cólera, varíola, febre amarela, malária. O exército de mata-mosquitos de Osvaldo Cruz zerou a morte por febre amarela em 1909. Em 1955 o Aedes foi erradicado no Brasil. Mas ele reapareceu em 67, no Pará. Lutamos com toda a força em meu governo. Mas em 1990 a Sucam foi extinta, e com ele se foram os mata-mosquitos. Naquele ano passaram de 100 mil os casos de dengue. Em 2015 foram mais de 1,6 milhões.

O único caminho é a erradicação do mosquito. Não basta acabar com as larvas. Durante as epidemias, é preciso atingir a forma alada, pois o mosquito continua infectando durante toda a sua vida, de 1 mês e meio a dois meses. Para um e outro controle, ponto a ponto, não basta conscientizar a população, das cidades e do interior, para que elimine os pontos de água parada, ou pedir que use mosquiteiros, roupas que cubram todo o corpo, repelentes. Temos que mobilizar corpos profissionais com a única tarefa de combater o Aëdes aegypti e os outros vetores de doenças tropicais, Anopheles, Aedes albopictus, etc.

Os mata-mosquitos, espalhados pelo Brasil inteiro, sabiam o que fazer. Já perguntei, mas não ofende repetir: por que não voltar o mata-mosquito, um exército vitorioso? É saudosismo? Pode ser. Mas deu certo.

O presidente Rodrigues Alves, tão receoso das epidemias que vivia em sua cidade natal, Guaratinguetá, pensando estar longe delas, morreu de gripe espanhola. Essa gripe foi devastadora, matou — quem sabe? — 100 milhões de pessoas no mundo. Ora, direis, naquela época… A gripe suína de 2009 matou 400 mil. E no dia a dia, entra ano sai ano, vão-se outros 500 mil com as gripes “comuns”.

Falamos de morte, e, como no caso da dengue, da chicungunha e da Zika — que não é desconhecida, mas está transformando seu ataque —, de muito sofrimento. As vezes com repetições. Tive malária três vezes, sei o que foi. O velhíssimo impaludismo, transmitido pelos Anopheles, é talvez a coisa mais perigosa do mundo — pelo menos entre as conhecidas: as estatísticas mundiais chegam a 550 milhões de casos por ano, com até 1,2 milhões de mortes.

Muita pesquisa ainda não descobriu sua cura nem vacina. O caminho é erradicar o mosquito. Vale para os Anopheles, vale para o Aedes. Ambos brasileiríssimos, da Silva.

 

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