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A Descoberta de São Luís

A cidade de São Luís, criada há mais de 400 anos sob o signo da cruz, é um amor que descobri menino. Meu pai fora chamado para trabalhar na Procuradoria do Estado, e começamos a vida itinerante que marcou minha infância.

Embarcamos cedo em São Bento. Passei mal na viagem. Ao anoitecer, na entrada do Porto de São Luís, melhorei. Chegávamos. Olhei as luzes da cidade. Tudo me pareceu muito claro e belo. Via a eletricidade pela primeira vez e fiquei intrigado com essa luz que não se apagava, como acontecia com os morrões das lamparinas.

Como os barcos aproveitavam sempre o princípio da maré enchente, para ter algum calado, chegavam juntos todos os barcos do interior do Maranhão. Era muita gente desembarcando de outros veleiros. Impressionou-me logo a quantidade de carroças. Em São Bento havia apenas umas três e alguns carros de bois. Não havia chegado a era dos pneus e do raio das rodas. As carroças que ali estavam eram de aluguel, para receber a bagagem dos que chegavam. Era coisa de toda espécie: malas, sacos, cofos e engradados de galinhas, patos, porcos. Gaiolas de passarinhos, paneiros de farinha e peixe salgado, couros de bois, caças do campo — jaçanãs, marrecas — e peles de caças, como veados, onças, gatos do mato. A carga grande do barco era composta de amêndoas de babaçu, que tinham um cheiro muito forte e concentravam um calor enorme. Menor era a quantidade de arroz e feijão. Também vinham cachos de bananas, laranjas, tanjas, bacuris, cupuaçus e carne seca de gado vacum.

Do barco, que ficava mais fora, tomamos uma canoa que encostou na rampa, feita de pedra, a qual avançava na água e era coberta pela maré, a Rampa Campos Melo. Não existe mais. Era escorregadia, cheia de limo e, por isso mesmo, os catraieiros ajudavam para que as pessoas não escorregassem e caíssem.

Chegamos. Alugamos uma carroça, colocamos os cacos e nós fomos de bonde. Fiquei impressionado com o bonde. Queria saber o que puxava o bonde e perguntei a minha mãe: “Quem puxa o bonde?” Minha mãe me disse que era a eletricidade. Fiquei sem entender. Ainda estava tonto e mareado para ir mais longe. Depois, quando vi a lança do bonde, correndo num fio, julguei que a tal eletricidade fosse essa lança que puxava o bonde. Se o carro de boi tinha o boi, a carroça, o cavalo, o bonde tinha a lança.

Ficamos em casa de Tia Martinhana, uma pequena casa, dessas construções tradicionais e simples do Maranhão, porta e janela, que não precisam de mobiliário, só de cadeiras e bancos toscos, e à noite se transformam em dormitórios, com redes armadas em todos os lugares: sala, corredor, varanda, quartos, de modo a que todos tenham onde ficar. Desses primeiros dias guardo recordações indeléveis. A descoberta da cidade de São Luís, dos casarões altos que pareciam ir ao céu, o casario da cidade que se derramava em ocre, pelas ladeiras, num subir e descer, e as telhas cobrindo tudo, como se fosse um lençol estendido sobre a cidade. São Bento e Pinheiro não tinham sobrados, eram só casas térreas. Meu deslumbramento era imenso.

Descobri, então, que o centro do mundo não era São Bento, que existiam mais coisas na Terra, como as carrocinhas que vendiam refrescos feitos com raspa de gelo. O algodão doce e rosa que era vendido também nas carrocinhas. Não tinha o arroz de caldeirão com torresmo do interior, tudo era diferente. Mas as pessoas se vestiam do mesmo modo que no interior. Os homens de camisas, sempre de manga comprida, roupas de brim ou dólmã. Na Praça João Lisboa e nas ruas, a maior parte de terno, e alguns, mais importantes, de fraque. O calçado era o chamató, que ocupava o lugar que é hoje das sandálias Havaianas. Era um tamanco de dois tipos: para as mulheres, com um couro de uns quatro dedos atravessado naquele pedaço de madeira e preso por tachinhas de cabeças roliças; e para os homens eram somente duas pequenas faixas de couro cruzadas, pregadas na frente. Todos eram de madeira baixa: para homens, mulheres e meninos. Eu andava sempre de chamató, como todos.

Naqueles dias nasceu esse bem querer que me acompanha por toda a vida, o amor pela cidade que descobri nas luzes da noite e na luz do dia, nos azulejos e nas pessoas. Aquela São Luís desapareceu e sobrevive na minha memória, com todas as outras, as da minha juventude, as do meu tempo de homem feito, as dos meus anos que se acumulam, habitada pela multidão dos que se foram e dos que chegam agora, no renovar da vida. Múltipla e a mesma, São Luís, minha paixão!

São Luís, Patrimônio da Humanidade, cheia das lendas de assombrações noturnas, dos fantasmas, dos amores e da beleza!

Quem diz São Luís, para mim, diz Maranhão…

José Sarney

 

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