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A cidade mais bonita do mundo

Oh! Minha cidade!”

É assim que Tribuzzi, inspirado pelo seu amor a São Luís, começa o que hoje é o seu hino. Todos nós de nossa geração tínhamos um grande amor pela nossa cidade. Ela é encantadora e encanta. Giles Lapouge, um grande jornalista e escritor francês, descreve sua passagem por São Luís, em suas peregrinações pelo mundo. Era feriado quando chegou a nossa capital. Sentado num banco da Praça Benedito Leite, no silêncio da cidade parada, as ruas desertas, viu a beleza que nunca tinha visto daqueles sobradões brilhando nos seus azulejos, refletindo a cor do sol no poente, e não resistiu ao feitiço desta “ilha do amor”.

Escreveu: “Esta é a cidade mais bonita do mundo.” O registro desse momento está em seu livro Equinoxialles.

O Padre Claude D’Abbeville, que assistiu à fundação da cidade escreveu que “aqui é o Jardim do Éden”.

Eu penso como eles ficariam se agora chegassem aqui sem os musgos da visão do passado, em que Góngora tão bem definiu num verso: “O tempo tem carícias para as coisas velhas.”

É a decepção que eu vejo hoje em que desapareceu o amor pela nossa cidade que vive não só abandonada, mas num processo de destruição, que começa pela tortura que sofre diariamente em sua própria carne.

Um casal de amigos de fora que foi visitar agora São Luís, voltou e me disse da beleza da cidade, mas acrescentou: “Como pode estar tão abandonada?”

E relataram-me que muitos azulejos estão sendo roubados, ou caindo, ou são dilacerados por ações de vândalos.

Tenho falado várias vezes nesse assunto. Não é crítica a ninguém. É mesmo amor pela cidade da minha mocidade, da minha vida, da minha formação — chão dos meus filhos que aqui nasceram, em casa, com parteira e as dores da maternidade que desafiavam as mulheres daqueles anos.

Mas no fundo é o que eu vejo é o desamor por ela. Não está na mesa das autoridades municipais, cuja principal tarefa é zelar pela cidade: limpeza, integridade, cultura e características. O que há é o desrespeito “a nossa cidade” (Tribuzzi), que tem o reconhecimento da Unesco como Patrimônio da Humanidade. Para elas isso deixou de ser orgulho, e passou a ser desprezo. Desprezo pelo trabalho, que levou décadas, de Haroldo Tavares, Eliezer Moreira, Felipe Andrés, Eduardo Portela — Subdiretor-Geral da Unesco e meu saudoso colega — e meu e terminou com a firmeza e determinação de Roseana.

Que manhã de luzes e alegria a de 4 de dezembro de 1997, em Nápoles, quando assistimos, nós, Roseana e o Prefeito Jackson Lago o anúncio da decisão, em reunião presidida pelo meu amigo, o grande intelectual espanhol Frederico Mayor Zaragoza, que tanto nos ajudou. Nessa reunião também foi tombado o Hospicio Cabanas, de Guadalajara, e eu, que também o conhecia, me levantei e bati palmas, isoladas mais sinceras.

Não está nas prioridades do Prefeito de São Luís a cidade que governa. Que ele ponha na mesa do seu planejamento (se tiver) esta que é a maior de suas obrigações e tarefas.

Vai fazer vinte anos e o que se vê não é a conservação a que somos obrigados, Município e Estado, de preservar e zelar por este Patrimônio da Humanidade, mas o esquecimento e o abandono.

Haja esperança!

José Sarney

 

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