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20 anos de esquecimento

Eu viajara a Guadalajara, México — onde estou agora —, para participar — como agora — da Feira Internacional do Livro, a segunda maior do mundo. Recordo que naquele ano aqui estive com Vargas Llosa, Fernando del Paso, García Márquez e Paulo Coelho. Lançava a edição de O Dono do Mar em espanhol, feita pelo Fondo Economico de Cultura, e descobria a grande, velha e bela cidade, fundada em 1532.

De Guadalajara segui, numa viagem longa, para Nápoles, onde se realizaria a Sessão da Unesco que deveria declarar a cidade de São Luís, no Maranhão, Patrimônio da Humanidade. Era o coroamento de uma luta em que minha geração se empenhara: a preservação da cidade velha.

Começáramos, nos anos 50 — Odylo, Tribuzzi, Domingos Vieira Filho e eu —, a campanha, numa época em que administradores a haviam retalhado, derrubando quarteirões para abrir avenidas, como a Avenida Magalhães de Almeida e a Rua do Egito, seccionando o tecido urbano, substituindo os sobrados por edifícios medíocres, acabando com as árvores do Largo do Carmo e até derrubando uma igreja, como a da Conceição, na velha e tradicional Rua Grande, que, graças a Deus, escapou da degola.

Nossa primeira tarefa, em parte vitoriosa, foi a de formar uma consciência da importância do patrimônio que herdáramos.

Lembrar que nossa História, nossa cultura, nossa manifestação artística eram nossa identidade.

Creio que hoje a maior parte dos maranhenses, de São Luís ou de outras partes do Estado, vê o Centro Histórico como incorporado à sua vida.

Fora em missão a São Luís o grande arquiteto português e conhecedor da história das cidades, Vianna de Lima, que traçou o primeiro roteiro de preservação e tombamento.

Naqueles tempos a visão mais comum em nosso País era a ilustrada por um prefeito de Angra dos Reis: “Doutor Rodrigo tomba por um lado, eu tombo pelo outro.”

E saíam botando abaixo o que encontravam pela frente. Em São Luís se seguia este lema.

O IPHAN fez muitos tombamentos em São Luís: objetos, prédios, trechos da cidade. Estudou a cidade. Entre os muitos que estiveram ali lembro Olavo Pereira da Silva e Dora Alcântara (e seu marido Pedro), pois os dois registraram sua passagem com livros fundamentais: ela, sobre azulejos; ele, Olavo, sobre nossa arquitetura.

Veio outra geração. Com Roseana à frente se avançou extraordinariamente. A cidade se acendeu. Foi um tempo de construção, ao contrário do presente.

Chegou a boa hora. O Governo de Roseana, por meio do IPHAN, preparou a postulação do Brasil de que São Luís fosse declarada Patrimônio da Humanidade. No dia 6 de dezembro, no teatro do Palácio Real, em Nápoles, assistimos à reunião da UNESCO, presidida pessoalmente por Federico Mayor, grande intelectual e homem público espanhol.

Leram-se os nomes dos monumentos que recebiam a distinção.

Companhias ilustres, como Carcassonne, na França, recuperada por um dos pais da preservação cultural, Violet-le-Duc. Chegou a vez do Brasil e de sua candidatura: São Luís do Maranhão. Aprovação unânime. Festa. Emoção profunda. Estavam em Nápoles a Governadora Roseana; o Prefeito de São Luís, Dr. Jackson Lago, eu e uma grande comitiva.

Pouco depois, chegou a vez de Guadalajara — onde estou agora —, e o Hospício Cabañas, com murais de Orosco, juntou-se a nós. Fui o único a aplaudi-lo, solitário.

Passados 20 anos, verificamos como é importante não dormir sobre os louros conquistados. A cidade de São Luís do Maranhão está quase agonizante, prestes a perder o título, que tanto lutamos para conquistar. O compromisso que assumimos, de usufruto e guarda, não está sendo cumprido. O que lhe dão é desfrute e abandono.

Basta lembrar o silêncio com que estamos comemorando a data, sem uma única menção a ela. Nada, nada.

Mas eu relembro e, com Roseana, Luís Felipe Andrés e todos que participaram dessa luta, continuamos a batalha.

Salvemos a cidade, 20 anos de Patrimônio da Humanidade.

José Sarney

 

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