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Natal, Trump e Jerusalém

Estamos vivendo o Terceiro Domingo do Advento. Na liturgia da Igreja Católica, o Advento é o tempo preparatório da vinda do Filho de Deus, que, assumindo a condição humana, veio para mostrar aos homens que não estamos sós neste planeta azul, onde Deus nos colocou na beleza da Criação.

Jesus veio ao mundo numa pequena e pobre aldeia da Judéia, mas foi em Jerusalém que Ele passou os maiores momentos de sua vida. No templo de Salomão pregou, expulsou os vendilhões e desafiou os sacerdotes.

Jerusalém é um símbolo da humanidade, sagrado para as três religiões monoteístas do Ocidente. Ela foi palco de grandes batalhas, da destruição do templo, de sua reconstrução e de nova destruição, de invasões de bárbaros e da crença de que devia ser retomada, por um ou outro lado, inclusive na sedução das Cruzadas, onde se bateram santos e heróis.

Com o tempo, os homens, para resolverem questões políticas, dividiram a cidade, separada em áreas onde cada uma das religiões tinha o seu terreno sagrado, mas todos insatisfeitos e desejando tomar o todo e não ficar com apenas uma parte.

Eu estava na Organização das Nações Unidas (ONU), em 1961, membro da Comissão de Política Especial, onde se discutia a questão dos refugiados árabes da Palestina, como eram chamados aqueles que haviam sido desalojados para a criação do Estado de Israel, que ocorrera sob a presidência, naquele organismo internacional, de um brasileiro, o grande Osvaldo Aranha. Dessa comissão fazia parte Golda Meir, um ícone na história de Israel, que ainda não fora primeira-ministra, era Ministra das Relações Exteriores e chefe da delegação israelense. Com ela muitas vezes conversei e por duas vezes almocei.

Já àquele tempo o tema causava profundos radicalismos.

Ano vem, ano passa e chegamos a uma relativa tranquilidade, com a fundação da Autoridade Palestina, que passou a unir os diversos grupos árabes da área em busca de negociar a Paz. Os que mais avançaram nessas negociações foram o presidente israelense Isaac Rabin e o presidente egípcio Anwar Sadat, ambos mortos por extremistas dos dois lados, imolados pela visão da convivência em harmonia, e o construtor do Acordo de Oslo, Shimon Peres, de quem fui amigo. Os três ganharam, com justiça, o Nobel da Paz.

Vários presidentes americanos tentaram resolver essa questão, devendo se destacar Carter, Clinton e Obama, e fizeram grandes esforços. Agora, quando parecia que as coisas iam serenar, ganhou as eleições americanas o Senhor Donald Trump, um troglodita da melhor espécie, que por nada, a não ser para desviar as acusações de assédio sexual e de aliança com os russos para fazer um jogo sujo contra a Hillary Clinton, resolveu anunciar que reconhecia Jerusalém como capital de Israel e iria mudar a embaixada americana para lá. Sabe ele que isso não é exequível, mas, na sua alucinação permanente, criou uma crise mundial.

Começa uma nova Intifada, a terceira, a inquietação invade a população de Telavive e o terrorismo recrudesce em todas as partes do mundo, em ondas de protesto e atentados.

Jerusalém é considerada sagrada por judeus, muçulmanos e cristãos. Ali, Jesus Cristo morreu, ressuscitou e anunciou que voltará, Maomé falou com Deus e Salomão construiu o Templo. Quantos mortos já contabiliza a loucura demagógica de Trump?

Os sinos do Natal já são ouvidos.

O mundo inteiro se prepara para as festas natalinas. No entanto, no Oriente Médio, em vez do Menino Jesus chega Trump, que não leva brinquedos, mas semeia a morte das crianças, nos dentes cerrados que de lado a lado se enfrentam e nas consequências, que sempre pesam mais para os mais fracos.

Choremos por essa guerra, que toda noite nos deixa comovidos com os cadáveres loucamente carregados por grupos de fanáticos religiosos, enquanto Trump nem se desculpa das acusações de desrespeitar mulheres.

José Sarney

 

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