Início » Artigos » 60 anos de Academia

60 anos de Academia

Neste mês, no dia 12, completei 60 anos de minha eleição para a Academia Maranhense de Letras, onde ocupo a Cadeira que tem como patrono Humberto de Campos, sucedendo a Correa da Silva, jornalista e grande poeta, cuja obra esquecida era toda um hino à cidade de São Luís, que ele amava com todas as belezas dos seus versos.

Num sobradão que dá frente para o Beco do Teatro, tinha como lateral esquerda um grande paredão que podia e ainda pode ser visto do prédio da Academia e nele, desbotado pelo tempo, estava escrito com letras grandes “Casa Transmontana”. Esse edifício está nas memórias de Humberto de Campos, onde ele conta que, como caixeiro, rompeu o século XX (1900) conferindo garrafas e recebendo de uma delas, que quebrara, um grande golpe na mão, costurado a seco!

São Luís não tinha automóveis, nem ônibus. Era o bonde o veículo de transporte e onde começavam os olhares que davam em namoro. Eu estava noivo, trabalhava e estudava, tinha 21 anos e iria completar 22, em abril. Gozava de razoável reconhecimento da cidade como editor do Suplemento de Letras de O Imparcial, ao qual muito me dedicava. Publicava versos e escrevia artigos de jornal, fazia crítica literária e reconhecido escritor, jornalista e uma jovem liderança que despontava.

Chegara a São Luís em 1941, vindo de São Bento, a bela indelével cidade da minha infância, para fazer o exame de admissão para o Colégio Marista, morava num pensionato de Dona Rosilda Penha, na Rua de São Pantaleão. Dela guardo imenso carinho. Três anos depois, com a vinda do meu irmão Evandro, para estudar, e meu pai não tendo recursos, alugamos um quarto na Rua da Madre Deus, em casa de Pedro e Cândido Costa, casados com dona Lidia e dona Sérgia, esta operária da Fábrica Santa Amélia que ficava em frente. Deles recebi amor e proteção.

No Liceu minha vocação de liderança já aflorava e fui eleito presidente do Centro Liceísta, onde movimentei o Colégio com grandes festas culturais e fundei um jornal, A Folha do Estudante. Maria da Graça Jorge (como eu gostava dela), Elimar Figueiredo e Dayse Falcão brilhavam como declamadoras e exemplos de estudo.

Depois fui ser presidente da União Maranhense de Estudante, Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, representante do Maranhão na UNE. Ao lado dessa efervescente atividade na política estudantil, fundamos um movimento cultural, o neomodernismo, com Belo Parga, Madeira, Lago Burnett, Ferreira Gullar – então José Ribamar Ferreira -, Evandro, Lucy Teixeira, Floriano Teixeira, Figueiredo – estes últimos pintores modernistas. Nosso grupo rompia com o passado parnasiano e logo entramos em combate com o Centro Cultural Gonçalves Dias, que reunia os jovens intelectuais tradicionalistas.

Eis que, por sorte do destino, chega ao Maranhão o jovem Bandeira Tribuzi, que trazia de Portugal, como ele diz num de seus sonetos, Fernando Pessoa na bagagem, nos desvendou o mundo dos poetas novos de Portugal, José Régio, Miguel Torga, Sá Carneiro, Antonio Boto e todos. Juntou-se a nós e assumiu a liderança do grupo, por “droit de conquête”.

Mata Roma, diretor do Liceu quando ali eu era aluno, tornou-se de admiração por mim e tornou-se o grande amigo e me ensinou, como professor, português e literatura. Já então eu estava envolvido em todas as iniciativas e movimentando o meio cultural, fundando com dona Lilá Lisboa a SCAM (Sociedade de Cultura Artística do Maranhão), onde realizávamos no Teatro grandes concertos com artistas daqui e de fora. O Maranhão – cidade de São Luís – era sacudido por um vento forte cultural. Fundei com Tribuzi a revista A Ilha, marco naqueles tempos. Fui eleito para o Instituto Histórico do Maranhão.

Foi uma geração de poetas e amigos. Lançamos uma ponte nacional com Odylo Costa, filho, nosso ídolo – que veio a ser o melhor amigo da minha vida -, Josué Montello e Franklin de Oliveira. Colaborávamos em jornais e revistas do Brasil inteiro. Logo depois, começamos a pensar no Maranhão e daí para entrar na política foi um passo.

Aliado a essa atividade literária, desde os 14 anos trabalhava. Fui contínuo da polícia, datilógrafo no Tribunal de Contas, catalogador na Biblioteca Pública e oficial judiciário, além de jornalista contratado do Imparcial quando ingressei vencendo um concurso de reportagem.

Foi nesse clima que eu, um menino de 21 anos, era convidado por Mata Roma a entrar para a Academia e ele comandou a eleição. Uma vez eleito, recebeu-me com palavras de mestre e querer bem. Era de grande coração e gozava de grande respeito e admiração na cidade. Na posse, casa cheia, todos os acadêmicos de terno branco e gravatinha preta, nosso fardão. Marly, então minha noiva, sentada na primeira fila.

Fiz, confesso que sem modéstia, um discurso louvado e comentado pela cidade. Queria justificar, assim, a escolha de Mata Roma ao me abrir aquelas portas.

Era presidente Clodoaldo Cardoso, membros Odylo Costa, filho, Mário Meireles, Nascimento de Morais, o grande Nascimento, glória da cidade, Correa de Araújo, Rubem Almeida, Luso Torres, Josué Montello, Antonio Lopes, Luis Rêgo e todos os grandes intelectuais do Maranhão.

Ponho a memória a funcionar e aquela noite aparece como a primeira e mais forte alegria da minha vida.

Meu avô, Assuéro, quando soube, encheu-se de alegria:

– Meu neto José entrou para a Academia!

Dona Tudinha, sua vizinha, perguntou:

– O que é Academia, seu Assuéro? Ele respondeu:

– Eu não sei, mas sei que é coisa grande!

Hoje sou só o decano de nossa Casa e o que mais tempo ali permanece. Repito, 60 anos, Graças a Deus!

 

 

Leia também: